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Por nós

Minha mudança pra São Paulo aconteceu há 3 anos, exatamente no Dia dos Pais. Difícil esquecer a cara de apreensão que se apoderou do rosto do meu pai enquanto eu entrava no carro do meus amigos que me levariam ao aeroporto (não conseguiria deixá-lo fazer isso).

A partir desse dia, pelos próximos 7 meses eu seria acordada todo domingo pela frase “Oi, filhota.”. Geralmente meio sonolenta, balbuciava palavras clichês até finalmente entrar no status da vida em SP. A ligação, via de regra, terminava com um tom de tristeza e uma frase que demorei anos para entender “Quando você volta?”. Confesso que, não raro, ficava irritada. Parecia que torcia para que eu não desse certo aqui.

Quanta ingenuidade, a interpretação não poderia ser mais equivocada. Era justamente o contrário. Ele testava o quanto eu estava feliz nessa terra. Sabia que morar em uma cidade cinzenta, com pessoas endurecidas e “treinadas” a sobreviver constantemente competindo seria um cenário bem difícil para uma pessoa como eu – dependente de sorrisos, demonstrações de carinho e belas paisagens para contemplar. Toquei as Cataratas do Iguaçu pela Avenida Paulista. “Troquei” amigos-irmãos por “estranhos”. Troquei um projeto editorial que amava por uma aposta. Ele não torcia contra, só queria me motivar a ser forte, a ser a “baixinha teimosa” que educou com tanto amor.

Poucos meses depois da minha mudança para SP ele se foi. E como lidar com a sensação de que em seu último Dia dos Pais foi justamente quando o “abandonei”? Esse sentimento me acompanhou por muito tempo. Mas, conhecendo meu velhinho, hoje compreendo que foi justamente o contrário. Ele sempre me educou para ser uma pessoa que corre atrás do que quer, que não espera nada de ninguém – “vá lá e faça por você, mas sempre com respeito e ternura”. Ele me ensinou ainda que, mesmo levando rasteira das pessoas, temos que ser bons – “Não importa o que o outro faz de errado, mas o que você faz de bom”. Outro valor reforçado com vigor por ele era a importância de estudar muito e sempre. Não por acaso, minha última promessa é que faria mestrado na USP e cá estou. Por você, por mim, por nós. E, uma das lições mais lindas que tinha diariamente, nas suas pequenas ações no dia a dia, era a importância de ser honesta, correta, franca, respeitosa e protetora com todos que fazem parte da nossa vida – “dinheiro a gente perde, pessoas a gente protege, cuida e ama”.

Ele nem sabia, mas tinha me preparado exatamente para morar em SP. Ter saído pela segunda vez de casa justamente no último Dia dos Pais não foi acaso e menos ainda abandono. Eu mostrei para ele que estava pronta pro meu vôo solo, tendo por proteção os ensinamentos que ele tão brilhantemente me passou nesses anos todos. Hoje o sentimento não é de saudade, mas de gratidão. Não é de saudade porque tem tanto dele em mim que será sempre uma das pessoas mais presentes no meu dia. Obrigada universo por ter me dado um pai exatamente assim.

P.s: irmão e cunhados, justamente por ter um pai tão incrível, não deixei ocuparem o lugar dele. Sou a caçula, mas estou pronta para voar tendo-os apenas como irmãos, amados irmãos. O pai sempre estará “por aqui”.

A netinha “perdida*”

Entro no táxi e vejo uma simpática “vozinha” na direção.

Ela começa a contar a história da neta que há cinco anos fugiu de casa porque os pais não gostavam do namorado dela. Desde então, alguns telefones raros e breve (apenas para a vó).

Imaginei que a voz embargada e os olhos levemente marejados que observei pelo retrovisor eram pela emotividade implícita ao fato – especialmente pela saudade e quase ausência de notícia. Como estava enganada…

Quando chego ao meu destino e vou pagar, vejo que o taxímetro está parado há tempos. Fico sem saber como me portar e perguntou se houve algum problema com o equipamento porque mais ou menos sei quanto custa o trajeto (rotineiro nos últimos dias).

– “Não posso cobrar de você. Me lembra demais minha neta”.

Minha vez de engasgar e ficar completamente sem jeito. Insisti em pagar o valor que normalmente gasto ao percorrer esse caminho. E a vozinha me desmonta de vez:

– “Deixa eu pensar que levei minha menininha para passear como nos velhos tempos. Dá um sorriso que a corrida está paga e ainda fica com crédito” 

Adivinha quem saiu do táxi aos prantos? 

Por alguns instantes lamentei não ser a neta daquela senhora. Não pude evitar pensar em quanta dor cada um carrega por aí, mas precisa encobrir com um sorriso “amarelo”. Ela me recebeu com um delicioso sorriso e se despediu com os olhos vermelhos, segurando o choro. E o dia precisou seguir, para ambas. Mas com uma mistura de pesar, doçura e a sensação de que, mesmo não sendo a netinha “fugitiva”, recebi um carinhoso sorriso.

(*História verídica)