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Herói ou menino: análise do comercial de Gillette com Neymar

Uma breve análise do roteiro do filme “Um Novo Homem Todo Dia”, de Gillette com e sobre o jogador Neymar Jr. sob o viés publicitário da coisa (e não da atuação ou postura do Neymar, pois não sou crítica de futebol).

“Trava de chuteira na panturrilha, joelhada na coluna, pisão no pé. Você pode achar que eu exagero, e às vezes eu exagero mesmo. Mas a real é que eu sofro dentro de campo”.
Aqui ia bem um “nós jogadores de alta performance sofremos ”. Não é exclusividade dele.

“Agora, na boa, você não imagina o que eu passo fora dele. Quando eu saio sem dar entrevista, não é porque eu só quero os louros da vitória, mas porque eu ainda não aprendi a te decepcionar”.
Nada é mais consolador para um fã apaixonado do que ouvir seu ídolo reconhecendo vitórias e fracassos realmente de peito aberto e não semanas depois num anúncio publicitário. Mais que isso, ‘compartilhar’ a tristeza com os torcedores. Líder não corre. Líder, mesmo abatido, chama a responsabilidade.

“Quando eu pareço malcriado, não é porque eu sou um moleque mimado, mas é porque eu não ainda não aprendi a me frustrar”.
Não aprendeu a se frustar = pessoa mimada, que não sabe lidar com a condição de não ter o que quer. Vamos recorrer ao dicionário para não restar dúvida: 
MI.MA.DO: Adjetivo que define que ou quem tem excesso de mimo ou foi tratado com excesso de condescendência; Aquela pessoa que foi criada ou tratada com facilidades, recebendo o que desejava sem esforço, seja para ser agradada ou seja por fraqueza de quem oferece essas facilidades para não magoar ou causar algum esforço na pessoa agradada.

“Dentro de mim ainda existe um menino. Às vezes ele encanta o mundo, e às vezes ele irrita todo mundo. E minha luta é para manter esse menino vivo, mas dentro de mim, e não dentro e campo. Você pode achar que eu caí demais, mas a verdade é que eu não caí. Eu desmoronei. Isso dói muito mais do que qualquer pisão ou tornozelo operado”.
Momento mais verdadeiro do texto. Super digno.

“Eu demorei para aceitar as suas críticas, eu demorei para me olhar no espelho e me transformar em um novo homem, mas hoje eu estou aqui, de cara limpa e de peito aberto”.
Usar o clichê “cara limpa” num texto manifesto de MARCA depois de semanas de silêncio?! O.o
E poderiam ter trazido a questão de iniciar a jornada para se tornar um novo homem. Amadurecimento é processo, não um plug-in instalável.

“Eu caí, mas só quem cai pode se levantar. Você pode continuar jogando pedra, ou pode jogar essas pedras fora e me ajudar a ficar de pé. E quando eu fico de pé, parça, o Brasil inteiro levanta comigo.”
Afirma que o ele se tornou uma novo homem, mas fecha a narrativa reforçando a postura tão criticada de se portar como a pessoa com super poderes capaz de levantar o País. Se assumir esse papel de salvador, quando falhar/cair automaticamente será responsabilizado pela “queda” do País. Não é sobre o indivíduo, é sobre o coletivo. Se quer ser visto como humano e parte de um fracasso coletivo, precisa dosar a esquizofrenia de se intitular o deus na vitória e apenas um menino na derrota.

Agora, sobre  a publicidade, é óbvio que o patrocinador espera o compartilhamento em massa que está acontecendo (ignorando se são comentários positivos ou não) e não me admira se render prêmio. O relatório final apresentado ao CEO será “a ação foi um sucesso, olha os big numbers“. Como ironiza o meme, “que morte horrível da menina publicidade”.

REFORÇANDO: não é uma análise sobre o Neymar, mas do texto publicitário envolvendo sua história. Não tenho nada contra ou à favor do cara. Aliás, minha opinião não muda em nada a vida dele (ou a conta bancária dele). E, o mais importante, sou completamente contra qualquer discurso de ódio. Ser fã não dá direito a ofendê-lo em esfera alguma.

Planejamento digital: o exercício de observar e respeitar as pistas sociais

Um pouco do conteúdo apresentado no Share Talks SSA sobre como as novas condições ambientais e comportamentais afetam a relação dinâmica entre marcas e consumidores, realizado em Salvador, no dia 28 de outubro de 2017.

Há tantos elementos e acontecimentos que determinam como interpretamos e interagimos com o mundo que reduzir os consumidores em meia dúzia de clusters é simplista! 

Cada pessoa desempenha múltiplos papéis sociais (pai, filho, marido, funcionário, praticante de atividade física etc.), universos com suas próprias pistas sociais, mas que, dialeticamente, formam um indivíduo.

Soma-se a isso exercemos esses papéis sociais em contextos complexos, especialmente no que tange retenção de atenção do público por conta de cinco condições:

  • Somos impactados por hiperestímulos.
  • Facilidade de acesso aos meios
  • Somos conectados solitários.
  • Vivemos a dualidade entre ansiedade de estar informado sempre e o anseio por tempo de ócio.
  • O público é produtor-consumidor.

Por isso, desconfie do óbvio e use sem moderação as pistas sociais “deixadas” para planejar sua comunicação. E lembre-se que informação que não é transformada em insight que orienta planos acionáveis é sinônimo de bullshit. Mas, importante, não é sobre julgar, é sobre entender.

 

Estruturando as pistas sociais:

1º Escute, observe, capture e enxergue (não apenas olhe).

2º Estabeleça diagnóstico, isolando variáveis, mas sem perder noção do todo.

3º Busque mais informações para compreender o contexto e reavaliar as hipóteses/diagnóstico.

4º Formule um plano de ação.

5º Compartilhe/verbalize/coloque em prática o plano estratégico.

Mas, como bem ressalta José Mujica (Pepe)…

O desafio não é “comunicar” um produto ou serviço é construir percepção de valor que ele vale “x tempo de vida”Isso só é possível, conhecendo a fundo a tensão do consumidor.

Material na íntegra

Influenciadores e marcas: construção de endosso e relevância

No dia 23 de Junho aconteceu o 3º Encontro de Pesquisa COM+, na USP, com a temática “Influenciadores digitais: entre a academia e o mercado”. Ao lado de Gabriel Ishida, Isssaaf Karhawi e Carol Terra, debati sobre a construção de endosso e relevância que ocorre na relação entre marcas e influenciadores.

Slides de suporte da minha apresentação:


A relação entre marcas e consumidores mudou especialmente com a condição de que estamos constantemente conectados, o que corrobora para o fortalecimento da tríade:
– Cultura da Conexão (Henry Jenkins): “If it doesn’t spread, it’s dead”.
– Groundswell: as pessoas recorrem às fontes não oficiais para resolverem suas demandas.
– Micro-momentos: as marcas precisam se conectar aos momentos mais estratégicos do dia dos consumidores, oferecendo informação útil e/ou experiência (nunca sendo invasivo).

Ou seja, emerge a necessidade que as narrativas contadas pelas marcas coloquem os consumidores no centro. Nesse sentido, os influenciadores se tornam aliados estratégicos para transformar campanhas em experiências, revestindo as mensagens de endosso e relevância.

“Não se trata de quantos seguidores você tem, mas de quantos deles se importam” (Gary Vaynerchuck)

Tendo em mente esse desafio, é fundamental que a escolha dos influenciadores seja cuidadosa e pautada no capital social de cada um – alinhado aos desafios da marca, compreendendo o papel estratégico (legitimador, conector ou broadcaster) e numa relação ganha-ganha para anunciante, influenciador e público/fãs.

Vídeo do debate na íntegra:

Sobre contar histórias

Jornalista por formação, planner por opção e contadora de histórias por decisão do coração. Sou assim. Brincar com fatos sempre fez parte da minha vida desde a infância. Lembro de episódios que se passaram quando tinha 5 anos (devidamente confirmados por testemunhas com mais idade :P).

O mundo só ganha sentido para mim quando consigo transformar o que se passa na frente dos meus olhos, nos relatos ouvidos de terceiros e nas minhas leituras em narrativas. Pode ser um texto (como esse que estão lendo), um desenho (coisa rara porque sou lamentável nesse quesito) ou um ppt. Lapido fatos em notícias; relacionamentos sociais em bem querer; histórias e dilemas de marcas em estratégias que dão origem a um planejamento.

Nos últimos anos, a maior parte das minhas histórias estão materializadas em ppts. Netshoes, Chivas, Itaú, Fundação Dom Cabral, Fundação Fenômenos, TNT, Warner e outras marcas que por dias ou semanas se tornaram minha “companhia”, meu assunto favorito. E a turma do Social Plus me convidou para falar sobre isso. Quem quiser conferir, vídeo completinho aqui 🙂