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Educação não deveria ser privilégio

O sonho dos meus pais era fazer faculdade.
Minha mãe, em especial, sempre desejou ser professora. Professora focada em alfabetização de crianças.

Ela foi apenas até a quarta série. O sonho de alfabetizar se inviabilizou (embora insista com ela a voltar a estudar). Meu pai concluiu, depois de adulto e no regime supletivo, o Ensino Médio. Dos dois, ele foi quem chegou mais perto de entrar numa instituição de Ensino Superior.

Minha casa nunca teve muitos livros. Minha casa sempre teve muita conversa com palavras erradas, com conjugações verbais equivocadas e com plurais ignorados.

Contudo, esse casal de pouca escolaridade são as pessoas que possuem (possuía no caso do meu pai que já se foi) os olhos mais brilhantes ao falar sobre escola. Graças à jornada dupla de ambos – com no mínimo 15 horas de trabalho por dia – eu e meus irmãos sempre tivemos o privilégio de estudar em ótimas escolas. Como sou a caçula do bando, geralmente conseguia o benefício de bolsa de estudo, com o compromisso de alcançar notas altas.

Eu não vi clássicos da literatura nas mãos da minha mãe ou na biblioteca de casa. Aliás, nunca tivemos sequer um armário de livros razoável a ponto de poder chamar de biblioteca. Talvez por isso livros físicos sejam tão importantes para mim. Já mudei algumas vezes de cidade e são a única coisa que sempre carreguei comigo (além dos gatos, obviamente). O resto deixo pra trás.

Até onde deu, minha mãe me ajudava a fazer as tarefas da escola. Conforme avancei nas séries, especialmente ao chegar no Ensino Médio, a ajuda para aprender as matérias vinha dos irmãos e, principalmente, dos professores. Sempre tive uma relação de quase adoração com meus professores. Inventava motivos para passar o maior tempo possível na Escola.

Na faculdade não foi diferente. Ficava por lá muito além do horário das aulas (e juro que não eram horas gastas com “balburdia”, porres, drogas e similares. Era a “careta” do rolê… podem me julgar). Fiz Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). 4 anos intensos. Primeira vez longe de casa, morando num pensionado com 19 pessoas – então estranhas e hoje, em sua maioria, amigas. O valor subsidiado do Restaurante Universitário para me alimentar e a bolsa de estudo para trabalhar nos laboratórios do Curso fizeram muita diferença porque reduzia os custos de morar longe. Os professores que me provocavam a ir além do óbvio, desenvolvendo um pensamento complexo e plural ancorado em pesquisa, e o acesso aos laboratórios – pouco equipados e, não raro, sem técnicos, o que demandou que nós editássemos programas de TV e rádio, diagramássemos publicações e revelássemos as fotografias (UEPG te capacita, na força, a ser multitarefa) – são grandes responsáveis pela profissional que sou hoje.

A UEPG me deu ainda grandes referências do que é ser professor. Quanto mais eu convivia com eles, mais tinha certeza de que a sala de aula seria parte da minha vida pra sempre, como aluna e como professora. No dia da formatura, o sorriso dos meus pais transbordava de seus rostos. Parecia que eu estava ganhando o Nobel e não “apenas” concluindo o Ensino Superior. Esse “apenas” tinha o peso de um sonho não realizado por eles. Tinha o peso de dois corações que se atrapalhavam no falar, mas que jamais fraquejaram na missão de dar todas as condições da filha não apenas cursar faculdade, mas viver cada oportunidade que esses 4 anos poderiam ofertar.

Depois veio Especialização e o Mestrado – também em entidade pública. Mestrado na USP, ironicamente (ou não), tema/promessa da última conversa que tive com meu pai antes dele falecer.

– Por que morar tão longe de casa?
– Porque meu sonho é fazer Mestrado e Doutorado na USP.
– Promete que vai fazer e não peço mais para voltar para Foz.
– Vou fazer, sim, pai. Confia.
– Ok, vamos pra sua formatura.

Meu pai sonhava em fazer faculdade. Eu, graças ao esforço dele e da mãe, tive o privilégio de sonhar mais. Ele não chegou a me ver mestra, mas o Mestrado virou realidade (Doutorado ainda é sonho). Também me tornei pesquisadora e professora, obviamente o assunto preferido da minha mãe comigo. Cada vez que começo a lecionar numa turma nova é inevitável pensar que nada disso aconteceria sem o sacrifício deles e como tenho privilégios.

Como isso é contraditório. Educação não deveria ser privilégio. Educação é pressuposto. Educação é presente e, sobretudo, futuro. Educação não se barganha, não se menospreza, não se leiloa, não se destrói.

Apoiar o ataque a professores e a desestruturação da Educação não é posicionamento partidário, é questão (falta) de valor. Aprendi com dois “velhinhos” pouco letrados e absurdamente sábios que Educação é alimento pra alma.

Alunos, resistam.
Educadores, resistam.
Quem acredita em futuro, vem com a gente.