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A vida como ela é: romance, erotismo e comédia pastelão

Casal (em prospecção ainda) senta num cantinho, na sala mais aconchegante do Starbucks da Haddock e começa a jogar conversa fora. No começo, uma das pessoas estava visivelmente envergonhada e pouco à vontade pelo fato da sala estar cheia. Mal conseguia olhar diretamente nos olhos do parceiro.

Aos poucos as pessoas vão saindo, restando apenas o casal e uma mulher concentrada em seu notebook. Como se fosse combinado, proporcional ao esvaziamento da sala, a trilha sonora foi ficando mais sutil e com batidas românticas. Elementos suficientes para o casal esquecer o terceiro elemento na sala, deixar a vergonha de lado e materializar o que estava mais do que explicito nos movimentos desajeitados e nitidamente nervosos de ambos e no sorriso bobo, espontâneo e inconsciente, característico nas pessoas apaixonadas.

Clima de romance no ar. O terceiro elemento pensou como seria perfeito se começasse a tocar Vinicius de Moraes, o poetinha que hoje completaria 100 anos e que falava de amor como poucos. Mas esse olhar de ternura foi bruscamente interrompido quando o casal subitamente se transportou para um cenário típico das narrativas de Nelson Rodrigues. Impossível não lembrar da frase certeira de Eduardo Galeano: “somos todos imortais até o primeiro beijo e o segundo copo de vinho”.

A dúvida se a cena deveria ser considerada tentativa de bullyng (trabalhar em pleno domingo versus ser personagem de Nelson Rodrigues é uma comparação cruel) ou falta de noção ainda estava povoando a mente do terceiro elemento – que estava mais para ser invisível considerando a empolgação do casal – quando chegou um segurança e mudou drasticamente o gênero narrativo.

Do romance ao erotismo e, agora, hora da comédia pastelão. E como ele fez isso? Com uma frase:
– “Tenho duas alternativas: jogo água gelada para separar os dois ou entro na festa”.

Com uma deliciosa gargalhada e uma frase ainda mais espirituosa, um dos moços responde:
– “Não sei se dou conta dele, imagina de mais um homem armário como você. Melhor um plano C: partir e agora”.

Um riso generalizado toma conta da sala, com leves traços de constrangimento, claro. O segurança sai rindo e o casal se levanta e vai em direção a porta. Quanto ao terceiro elemento, um ponto laranja no sofá? Bem, volta a se concentrar no computador e preparar sua aula.
Ps.: História verídica e o ponto laranja/terceiro elemento/pessoa invisível sou EU 😛

Máquina do tempo

Tempo e espaço são conceitos explorados exaustivamente pelos filósofos. Sempre preferi a versão dos poetas. Mário Quintana provocou: “O relógio de parede em uma velha fotografia – está parado?”. Ou ainda, “O tempo não pode viver sem nós, para não parar”. Vinicius de Moraes lançou mão de belas melodias para brincar com presença versus ausência e com o ritmo frenético ou em câmera lenta em que se passa nossa vida.

Contudo, não há poesia maior do que o sentido de tempo e espaço que experienciamos com as pessoas que são importantes em nossa vida. Melancolia, lágrimas, memórias, frustrações e saudade tecem essa relação. Ao invés de horas e quilômetros, nossos parâmetros de mensuração são sorrisos, abraços, piadas, tropeços, “vergonhas”… Afinal, como diz Eduardo Galeano, “somos feitos de átomos, mas também de histórias”.

A viagem de 1.000 km para a praia parece mais longa diante das muitas confusões e boas lembranças que se passaram e rápida demais considerando o tempo que gostaríamos que tivesse durado. Conversas de 5 horas – regadas a tererê, cervejas ou simplesmente por um turbilhão de confissões e gargalhadas – pareceram durar o tempo de um piscar de olhos, porém podem ser mais marcantes e “aproximadoras” do que uma convivência de anos.

Quando o cenário é de “ausência” essa elasticidade é ainda mais expressiva. A saudade aperta o coração ainda no instante da despedida. Olhar para alguém que é importante e imaginar que não o veremos tão cedo, antecipa – inevitavelmente – aquela dor de não poder ter sempre ao alcance das mãos. Anos se passam enquanto falamos a breve frase “até um dia”. Os mesmos anos que parecem sumir quando os olhos se cruzam novamente e o coração é reconfortado com o abraço no reencontro.

E a tal da distância, essa fanfarrona que impede de vermos ao vivo alguns sorrisos que são vitais para sermos nós mesmos. Ou de saber o que está se passando com um simples olhar, sem precisar de palavras. Felizmente a tecnologia está aí para amenizar, trazem para perto dos olhos, quem nunca saiu de dentro do coração. Filmes e músicas também têm esse poder mágico de desmaterializar um oceano inteiro. Bastam os primeiros acordes de algumas bandas para nos sentirmos acompanhados de pessoas de diferentes cidades (e até países).

Essa é a magia do tempo e do espaço. Nem mesmo os poetas ousaria explicar como é possível tamanha elasticidade e inconstância. Sou agradecida que funcione assim. E ainda mais grata por ter em minha vida pessoas mágicas que conseguem viajar da Inglaterra até São Paulo com uma simples mensagem de whatsapp; que fazem aparecer um sorriso em meu rosto enquanto leio Quintana; ou que “enviam” um abraço por “terceiros/quase desconhecidos”, rs – não menos verdadeiro, não menos caloroso, não menos apertado.

Ouvir algumas canções, ler certos versos ou visitar lugares carregados de histórias são as máquinas do tempo mais eficientes que existem. Assim como os poetas caçoam da morte, das dores de amor e das frustrações, eu uso essas “máquinas” para rir da distância e da ausência. Sei que as pessoas que amamos estão sempre ao fechar dos olhos, mais próximas e intensas que boa parte dos figurantes que trafegam no aqui e agora.

Se fazer lembrar e lembrar é mais que intencional, é importar-se.