Segunda Tela, cópia do conteúdo da TV*

*ou a preguiça nossa de cada dia

 

“Olhamos o futuro pelo retrovisor”. Essa frase dita por Marshall McLuhan há décadas permanece atual.

Em um rápido passeio pela história da comunicação, esse comportamento se repetiu pelo menos em duas situações: a “chegada” da televisão no Brasil, em 1950 – fortemente ancorada no modelo e linguagem do rádio – e os primórdios do jornalismo online, quando os veículos faziam a transposição ipsis litteris do impresso.

No caso da segunda tela novamente estamos olhando pelo retrovisor. As emissoras, na ânsia de não ficar de fora desse “formato/recurso do momento”, cometem o mesmo erro espelhando o conteúdo de uma plataforma (no caso a TV) nesse ambiente “secundário”.

Assim como a falácia do jornalismo online como cópia do impresso não durou muito tempo – cerca de um ano entre o lançamento do Jornal do Brasil Online (idem ao impresso), em 1995, e o surgimento do UOL, em abril de 1996 – o mesmo está acontecendo com os aplicativos que prometem atuar como plataforma de segunda tela, enquanto, de fato, são agregadores de mensagens de redes sociais. A cada semana um novo app é lançado, mas não conquista adesões expressivas e cai em desuso.

Para o jornalismo online se configurar como uma nova modalidade, os veículos tiveram que se estruturar para produzir conteúdos proprietários ao meio digital. Quem o fez com agilidade ganhou espaço e dinheiro. Aplicativos como com_vc da Rede Globo de Televisão – supostamente a plataforma de segunda tela da Emissora, embora na prática seja um agregador de tweets sobre os programas e alertas de quando a atração iniciará – são indícios de que estar presente independente da forma continua sendo a preocupação.

O O CMAIS+, da TV Cultura, é mais animador. Trata-se de uma plataforma de acesso via computador, com conteúdo de alguns programas da Emissora e possibilidade de interação com os apresentadores e outros espectadores. Desde o seu lançamento há uma preocupação em oferecer conteúdo complementar ao consumido pela televisão.

Enquanto isso, o mercado internacional segue explorando as possibilidades de segunda tela em séries, programas de entrevistas e, principalmente, em transmissões de eventos como o Oscar. Embora ainda limitados, merece destaque que compartilham da preocupação de oferecer algo além da informação apresentada na “tela principal”. E, não raro, é complicado conceber o app do tablet como secundário por conta da qualidade e riqueza das informações disponibilizadas.

Mais que tecnologia, segunda tela pressupõe extensão narrativa e um mundo de possibilidades de significações, tendo o público como protagonista desses enredos, muitas vezes. Mas para isso, é preciso olhar e se preocupar além do device, além do ferramental. Mais que investimento ou tecnologia disponível, o limitador das inovações no cenário comunicativo segue sendo imagem > efetividade.

Máquina do tempo

Tempo e espaço são conceitos explorados exaustivamente pelos filósofos. Sempre preferi a versão dos poetas. Mário Quintana provocou: “O relógio de parede em uma velha fotografia – está parado?”. Ou ainda, “O tempo não pode viver sem nós, para não parar”. Vinicius de Moraes lançou mão de belas melodias para brincar com presença versus ausência e com o ritmo frenético ou em câmera lenta em que se passa nossa vida.

Contudo, não há poesia maior do que o sentido de tempo e espaço que experienciamos com as pessoas que são importantes em nossa vida. Melancolia, lágrimas, memórias, frustrações e saudade tecem essa relação. Ao invés de horas e quilômetros, nossos parâmetros de mensuração são sorrisos, abraços, piadas, tropeços, “vergonhas”… Afinal, como diz Eduardo Galeano, “somos feitos de átomos, mas também de histórias”.

A viagem de 1.000 km para a praia parece mais longa diante das muitas confusões e boas lembranças que se passaram e rápida demais considerando o tempo que gostaríamos que tivesse durado. Conversas de 5 horas – regadas a tererê, cervejas ou simplesmente por um turbilhão de confissões e gargalhadas – pareceram durar o tempo de um piscar de olhos, porém podem ser mais marcantes e “aproximadoras” do que uma convivência de anos.

Quando o cenário é de “ausência” essa elasticidade é ainda mais expressiva. A saudade aperta o coração ainda no instante da despedida. Olhar para alguém que é importante e imaginar que não o veremos tão cedo, antecipa – inevitavelmente – aquela dor de não poder ter sempre ao alcance das mãos. Anos se passam enquanto falamos a breve frase “até um dia”. Os mesmos anos que parecem sumir quando os olhos se cruzam novamente e o coração é reconfortado com o abraço no reencontro.

E a tal da distância, essa fanfarrona que impede de vermos ao vivo alguns sorrisos que são vitais para sermos nós mesmos. Ou de saber o que está se passando com um simples olhar, sem precisar de palavras. Felizmente a tecnologia está aí para amenizar, trazem para perto dos olhos, quem nunca saiu de dentro do coração. Filmes e músicas também têm esse poder mágico de desmaterializar um oceano inteiro. Bastam os primeiros acordes de algumas bandas para nos sentirmos acompanhados de pessoas de diferentes cidades (e até países).

Essa é a magia do tempo e do espaço. Nem mesmo os poetas ousaria explicar como é possível tamanha elasticidade e inconstância. Sou agradecida que funcione assim. E ainda mais grata por ter em minha vida pessoas mágicas que conseguem viajar da Inglaterra até São Paulo com uma simples mensagem de whatsapp; que fazem aparecer um sorriso em meu rosto enquanto leio Quintana; ou que “enviam” um abraço por “terceiros/quase desconhecidos”, rs – não menos verdadeiro, não menos caloroso, não menos apertado.

Ouvir algumas canções, ler certos versos ou visitar lugares carregados de histórias são as máquinas do tempo mais eficientes que existem. Assim como os poetas caçoam da morte, das dores de amor e das frustrações, eu uso essas “máquinas” para rir da distância e da ausência. Sei que as pessoas que amamos estão sempre ao fechar dos olhos, mais próximas e intensas que boa parte dos figurantes que trafegam no aqui e agora.

Se fazer lembrar e lembrar é mais que intencional, é importar-se.

Agosto e as fortes emoções para o Jornalismo

Agosto foi intenso para as empresas de comunicação. No Brasil, profissionais do meio e leitores ainda estão tentando compreender o propósito da mídia Ninja e o modelo de financiamento do Grupo que está fazendo um trabalho que cada vez ganha mais notoriedade. Exemplo claro é a entrevista histórica no programa Roda Viva, da TV Cultura, com representantes da velha mídia, visivelmente confusos e com dificuldade de dialogar com as pessoas por trás dessa nova forma de se pensar a cobertura jornalística.

Depois dessa aparição em rede nacional, o trabalho da mídia Ninja virou pauta das redes sociais, da conversa no bar e nas universidades. Há quem desconfie e ataque ferozmente. Outra parcela defende ou simplesmente torce para que algo melhor do que a forma de se fazer jornalismo atualmente (viciada e envelhecida) ganhe força. Muitos estão buscando conectar as pistas, fragmentos, residual de discussões e fatos concretos que legitimem ou não o trabalho dos “ninjas”. Faço parte do terceiro grupo – de quem ainda está “colando as peças”. De toda forma, é inegável que algo grande, importante e marcante está acontecendo com o modo como as pessoas estão entendendo o jornalismo e sua função social.

Ainda no Brasil, também em agosto, demissões em massa por parte da Editora Abril – com rumores de outras dispensas nos próximos meses. Junto com isso, retirada do mercado de vários títulos, agrupamento de redações e recuo de projetos editoriais.

No cenário internacional o grande acontecimento foi a compra do Washington Post, pelo presidente da Amazon, Jeff Bezos. A transação despertou as tradicionais teorias conspiratórias. Uma das mais comuns e equivocadas – ao meu ver – é: “o homem que matou o livro agora matará o jornal impresso”. Nunca foram comercializados tantos livros no mundo como hoje em dia e boa parte desse incremento se deve a atuação da Amazon. A empresa fez justamente o contrário do que foi repetidamente acusada: houve a facilitação do acesso às publicações, mas em uma plataforma digital. Pouco plausível que um empresário como Bezos investiria 250 milhões de dólares para uma jogada comercial tão simplista e maniqueísta. Estamos falando do Washington Post, uma das publicações mais tradicionais do mundo. Estamos falando do presidente da Amazon, uma das empresas que revolucionou modelos de negócios.

E o que há de comum entre esses episódios? Os elementos centrais do jornalismo finalmente “ouviram” um xeque mate, foram desafiados a se reinventar. Produto (jornalismo), produtores (jornalistas) e veículos são os protagonistas dos três fatos narrados acima. Nem vilões, nem mocinhos, simplesmente atores que precisam encontrar um novo tom de voz, formato e papel para estar em cena de modo convincente.

A indústria da música vem passando por isso há anos. A tecnologia, a mudança de comportamento do público e o entendimento sobre “valor x investimento x relevância” foram, gradativamente, moldando/forjando novos modelos econômicos, de produção e atuação dos artistas e das produtoras.

Ironicamente, o Jornalismo, quem vem acompanhando e fazendo a cobertura de tais reviravoltas em diferentes segmentos da sociedade, preferiu tardar o quanto pode até falar em alto e bom som que precisava se reinventar. Não há mais como negar. Hora de responder como será daqui para frente. Como diria BAUMAN (2011), “Temos plena ciência, por exemplo, que estamos sentados sobre uma bomba relógio ecológica, uma bomba-relógio demográfica, uma bomba-relógio consumista e alguns outros tipos de bomba, cujo número parece aumentar em vez de diminuir. (…) Já está mais do que na hora de parar de dizer que não fomos avisados”. Precisamos saber lidar com isso.

No “tranco” como está sendo vai causar mais barulho, apreensão e “efeitos colaterais”. Mas é possível construir boas soluções. O caos – originado em partes pela miopia sobre contextos e oportunidades – é produtivo quando não se tem medo dele; quando olhamos direto para o problema, sem usar de subterfúgios ou falácias.

A colisão já aconteceu. Arrumar a casa não é opcional, pois a pressão está vindo do público, das demandas sociais e das forças do mercado. Ou, nas palavras de WARSHAN, citado por JENKINS (2009) em seu livro a cultura da convergência, “As velhas mídias não morreram. Nossa relação com elas é que morreu. (…) e todos nós temos três opções: teme-las, ignorá-las ou aceitá-las”. Por isso, que venha a mídia Ninja, os novos formatos e propostas da Editora Abril, uma fase diferente para o Washington Post e demais novidades que profissionais talentosos podem fazer para transformar o caos em formas interessantes e que consigam resgatar a função do Jornalismo: informar para ajudar a transformar a sociedade.