Procura-se

Um cadinho de doçura, de bom humor.
Um afago despretensioso e sem expectativa.
Uma conversa nonsense e divertida, simplesmente para ver o tempo passar.
Uma esquivada da frieza que sufoca sorrisos e pesa a alma.

Mercado e academia: mistura boa como feijão e arroz, embora ambos insistam em ser caviar

Não raro vejo cara de poucos amigos na Universidade quando menciono que atuo no mercado – como se fosse algo “mundano e sujo”. Ausência de receptividade também acontece, por vezes, ao falar com pessoas “exclusivas de mercado”, que consideram academia quase como um “mal necessário”. Ouvi mais de uma vez declarações nessa linha: “Por que ‘perde’ tempo com mestrado, já não trabalha em agência?” ou “Está estudando só porque academia paga melhor do que agência?”.

A cada aula que ministro tenho mais certeza que a combinação não poderia ser mais perfeita. Sim, academia + mercado. Jenkins, Shirky, Bauman e McLuhan perpassam direta ou indiretamente cada estratégia que traço para os clientes que atendo nas agências. O tema da minha pesquisa de mestrado não poderia ser mais pertinente para meu atual desafio. Não preciso usar referências bibliográficas ou frases de impacto no ppt, mas os ensinamentos desses pesquisadores estão lá, atrás de cada ação, cada posicionamento. Idem na sala de aula. Não há como e menos ainda razão para dissociar um do outro. Vida de agência e/ou redação ensina muito e precisa ser levada aos alunos, afinal, nada como uma boa dose de vida real. Com as conexões adequadas, a experiência de mercado “materializa” os ensinamentos de mestres como Bauman.

Estar em sala e ver a cara de “estou entendo o que você está falando” ou aqueles alunos aglomerados no final da aula esperando para tirar dúvidas pontuais são respostas perfeitas para quem duvida que mercado e academia devem estar conectados. E, claro, a melhor recompensa para a vida maluca que é essa jornada dupla.

Nossa arte de brincar de “super heroi”

Você se dá conta que a energia está acabando quando trabalhar 12 horas por dia começa não ser tão fácil assim. A voz falha, o corpo dói e o cansaço vence a fome a ponto de vc preferir se jogar na cama e dormir sem se alimentar do que dar alguns passos até a cozinha.

Quando a mania de moleca de cidade pequena de interagir com todos que passam em seu caminho, mesmo que apenas com um discreto sorriso, é substituída por cabeça baixa e uso compulsivo do fone de ouvido em qualquer ambiente onde transitem humanos, para “se proteger” de eventuais diálogos.

Quando passa mais tempo habitando uma realidade paralela, tentando organizar mentalmente os 10 mil compromissos que assumiu e julgava compatíveis.

Quando precisa fazer força pra sorrir enquanto antes bastava ouvir uma música (mesmo ruim) ou sentir o vento bagunçar o cabelo. Sim, o riso pode nascer das banalidades do cotidiano. Quer dizer, nascia.

O mundo anda cinzento. As pessoas estão ocupadas demais e imersas em suas realidades, procurando bravamente enfrentar esse mesmo mundão nublado e solitário.

O “ao lado” se “agigantou” ou talvez eu tenha me tornado ainda mais pequenina. As pessoas estão longe do alcance das mãos e, não raro, do coração. Sobra ausência e falta olho no olho.

Julgamentos se reproduzem em ordem geométrica e a capacidade de gostar da diferença (não digo aceitar e sim querer aprender e conviver de coração com quem pensa e sente diferente) é usada com parcimônia.

Cobranças de sucesso e eficiência pautam até o tempo que podemos processar um fracasso. A frase “engole o choro” nunca foi sentenciada tantas vezes como agora, especialmente para adultos. Não há tempo para fragilidade, receios e menos ainda para “e se”.

Com metáforas medíocres a sociedade forja a necessidade de ignorar nossos fantasmas, pois resolvê-los demanda tempo, sinceridade e exposição. Vamos evitar a fadiga, como diz o jargão cada vez mais enraizado em nosso cotidiano. Está proibido enfraquecer, discordar dos “gurus”, se cansar.

Haja energia para ter essa vida “Família Doriana com filtro de Instagram” num mundo onde a superficialidade se desmascara em segundos, com poucas letras no Google.

Mais um dia se vai. E embora a energia esteja fraca, novas aventuras estão a espreita daqui poucas horas. Histórias que aguardam para serem contadas. É preciso seguir escrevendo esse roteiro. Cores, emoção e gargalhadas hão de surgir em algum momento. Provavelmente quando estiver distraída tal qual o avozinho do poema de Mário Quintana que procurava seu óculos que estava, justamente, na ponta de seu nariz.

A vida como ela é: romance, erotismo e comédia pastelão

Casal (em prospecção ainda) senta num cantinho, na sala mais aconchegante do Starbucks da Haddock e começa a jogar conversa fora. No começo, uma das pessoas estava visivelmente envergonhada e pouco à vontade pelo fato da sala estar cheia. Mal conseguia olhar diretamente nos olhos do parceiro.

Aos poucos as pessoas vão saindo, restando apenas o casal e uma mulher concentrada em seu notebook. Como se fosse combinado, proporcional ao esvaziamento da sala, a trilha sonora foi ficando mais sutil e com batidas românticas. Elementos suficientes para o casal esquecer o terceiro elemento na sala, deixar a vergonha de lado e materializar o que estava mais do que explicito nos movimentos desajeitados e nitidamente nervosos de ambos e no sorriso bobo, espontâneo e inconsciente, característico nas pessoas apaixonadas.

Clima de romance no ar. O terceiro elemento pensou como seria perfeito se começasse a tocar Vinicius de Moraes, o poetinha que hoje completaria 100 anos e que falava de amor como poucos. Mas esse olhar de ternura foi bruscamente interrompido quando o casal subitamente se transportou para um cenário típico das narrativas de Nelson Rodrigues. Impossível não lembrar da frase certeira de Eduardo Galeano: “somos todos imortais até o primeiro beijo e o segundo copo de vinho”.

A dúvida se a cena deveria ser considerada tentativa de bullyng (trabalhar em pleno domingo versus ser personagem de Nelson Rodrigues é uma comparação cruel) ou falta de noção ainda estava povoando a mente do terceiro elemento – que estava mais para ser invisível considerando a empolgação do casal – quando chegou um segurança e mudou drasticamente o gênero narrativo.

Do romance ao erotismo e, agora, hora da comédia pastelão. E como ele fez isso? Com uma frase:
– “Tenho duas alternativas: jogo água gelada para separar os dois ou entro na festa”.

Com uma deliciosa gargalhada e uma frase ainda mais espirituosa, um dos moços responde:
– “Não sei se dou conta dele, imagina de mais um homem armário como você. Melhor um plano C: partir e agora”.

Um riso generalizado toma conta da sala, com leves traços de constrangimento, claro. O segurança sai rindo e o casal se levanta e vai em direção a porta. Quanto ao terceiro elemento, um ponto laranja no sofá? Bem, volta a se concentrar no computador e preparar sua aula.
Ps.: História verídica e o ponto laranja/terceiro elemento/pessoa invisível sou EU 😛

A netinha “perdida*”

Entro no táxi e vejo uma simpática “vozinha” na direção.

Ela começa a contar a história da neta que há cinco anos fugiu de casa porque os pais não gostavam do namorado dela. Desde então, alguns telefones raros e breve (apenas para a vó).

Imaginei que a voz embargada e os olhos levemente marejados que observei pelo retrovisor eram pela emotividade implícita ao fato – especialmente pela saudade e quase ausência de notícia. Como estava enganada…

Quando chego ao meu destino e vou pagar, vejo que o taxímetro está parado há tempos. Fico sem saber como me portar e perguntou se houve algum problema com o equipamento porque mais ou menos sei quanto custa o trajeto (rotineiro nos últimos dias).

– “Não posso cobrar de você. Me lembra demais minha neta”.

Minha vez de engasgar e ficar completamente sem jeito. Insisti em pagar o valor que normalmente gasto ao percorrer esse caminho. E a vozinha me desmonta de vez:

– “Deixa eu pensar que levei minha menininha para passear como nos velhos tempos. Dá um sorriso que a corrida está paga e ainda fica com crédito” 

Adivinha quem saiu do táxi aos prantos? 

Por alguns instantes lamentei não ser a neta daquela senhora. Não pude evitar pensar em quanta dor cada um carrega por aí, mas precisa encobrir com um sorriso “amarelo”. Ela me recebeu com um delicioso sorriso e se despediu com os olhos vermelhos, segurando o choro. E o dia precisou seguir, para ambas. Mas com uma mistura de pesar, doçura e a sensação de que, mesmo não sendo a netinha “fugitiva”, recebi um carinhoso sorriso.

(*História verídica)

A síndrome do “cão que caiu do caminhão de mudança”

O mundo, as pessoas, o chefe, a família, o mercado ou os vizinhos não são vilões e você o (a) mocinho (a). Há pessoas que nos fazem mais bem do que mal e o contrário também; acontecimentos felizes e tristes; situações que nos favorecem e outras nem tanto. Tudo faz parte do pacote chamado “vida”. Lamente menos e economize sua energia e tempo para investir no que faz diferença: resolver o que está em suas mãos, o que depende de você.  Simples assim.

Cuidado com o cômodo clichê “o tempo resolve os problemas”. Se você tiver a mesma atitude todos os dias, pouco provável que uma situação mude mesmo depois de meses.  A resolução das situações está mais atrelada à nossa capacidade de se permitir sentir e agir conforme as “verdades” que habitam nossa mente e coração, mas que receamos falar em alto e bom som. Elas se tornam “fantasmas” e uma bagagem pesada e desnecessária quando ocultas. Fique com mente e coração livres para interagir com o novo e para outras histórias.

Quando fazemos referência a um episódio “ruim” que se passou em nossa vida para justificar uma determinada ação ou não ação raramente são traumas. São desculpas e muletas – conscientes ou inconscientes – que acionamos para nos proteger ou escapar de decisões.  Mais fácil justificar uma postura “covarde” se passando por vítima. Claro que traumas existem (e aos montes), mas são difíceis de “acessar” e nossa mente nos “protege” deles ao máximo, só aflorando em situações realmente intensas.

Compare menos, racionalize só o necessário e, principalmente,  não crie expectativas ou planos mirabolantes. Ser surpreendido com aquele sorriso tímido que você nem sonhava que existia, descobrir um talento que jamais cogitou ou aquela história de família que mais parece cena de comédia pastelão podem ser afrodisíacos.

E, por fim, abdique da perfeição. Ela é improvável e, depois de um tempo, desinteressante. Assegure-se de estar com quem  aflora a melhor versão de você mesmo.

Segunda Tela, cópia do conteúdo da TV*

*ou a preguiça nossa de cada dia

 

“Olhamos o futuro pelo retrovisor”. Essa frase dita por Marshall McLuhan há décadas permanece atual.

Em um rápido passeio pela história da comunicação, esse comportamento se repetiu pelo menos em duas situações: a “chegada” da televisão no Brasil, em 1950 – fortemente ancorada no modelo e linguagem do rádio – e os primórdios do jornalismo online, quando os veículos faziam a transposição ipsis litteris do impresso.

No caso da segunda tela novamente estamos olhando pelo retrovisor. As emissoras, na ânsia de não ficar de fora desse “formato/recurso do momento”, cometem o mesmo erro espelhando o conteúdo de uma plataforma (no caso a TV) nesse ambiente “secundário”.

Assim como a falácia do jornalismo online como cópia do impresso não durou muito tempo – cerca de um ano entre o lançamento do Jornal do Brasil Online (idem ao impresso), em 1995, e o surgimento do UOL, em abril de 1996 – o mesmo está acontecendo com os aplicativos que prometem atuar como plataforma de segunda tela, enquanto, de fato, são agregadores de mensagens de redes sociais. A cada semana um novo app é lançado, mas não conquista adesões expressivas e cai em desuso.

Para o jornalismo online se configurar como uma nova modalidade, os veículos tiveram que se estruturar para produzir conteúdos proprietários ao meio digital. Quem o fez com agilidade ganhou espaço e dinheiro. Aplicativos como com_vc da Rede Globo de Televisão – supostamente a plataforma de segunda tela da Emissora, embora na prática seja um agregador de tweets sobre os programas e alertas de quando a atração iniciará – são indícios de que estar presente independente da forma continua sendo a preocupação.

O O CMAIS+, da TV Cultura, é mais animador. Trata-se de uma plataforma de acesso via computador, com conteúdo de alguns programas da Emissora e possibilidade de interação com os apresentadores e outros espectadores. Desde o seu lançamento há uma preocupação em oferecer conteúdo complementar ao consumido pela televisão.

Enquanto isso, o mercado internacional segue explorando as possibilidades de segunda tela em séries, programas de entrevistas e, principalmente, em transmissões de eventos como o Oscar. Embora ainda limitados, merece destaque que compartilham da preocupação de oferecer algo além da informação apresentada na “tela principal”. E, não raro, é complicado conceber o app do tablet como secundário por conta da qualidade e riqueza das informações disponibilizadas.

Mais que tecnologia, segunda tela pressupõe extensão narrativa e um mundo de possibilidades de significações, tendo o público como protagonista desses enredos, muitas vezes. Mas para isso, é preciso olhar e se preocupar além do device, além do ferramental. Mais que investimento ou tecnologia disponível, o limitador das inovações no cenário comunicativo segue sendo imagem > efetividade.

Máquina do tempo

Tempo e espaço são conceitos explorados exaustivamente pelos filósofos. Sempre preferi a versão dos poetas. Mário Quintana provocou: “O relógio de parede em uma velha fotografia – está parado?”. Ou ainda, “O tempo não pode viver sem nós, para não parar”. Vinicius de Moraes lançou mão de belas melodias para brincar com presença versus ausência e com o ritmo frenético ou em câmera lenta em que se passa nossa vida.

Contudo, não há poesia maior do que o sentido de tempo e espaço que experienciamos com as pessoas que são importantes em nossa vida. Melancolia, lágrimas, memórias, frustrações e saudade tecem essa relação. Ao invés de horas e quilômetros, nossos parâmetros de mensuração são sorrisos, abraços, piadas, tropeços, “vergonhas”… Afinal, como diz Eduardo Galeano, “somos feitos de átomos, mas também de histórias”.

A viagem de 1.000 km para a praia parece mais longa diante das muitas confusões e boas lembranças que se passaram e rápida demais considerando o tempo que gostaríamos que tivesse durado. Conversas de 5 horas – regadas a tererê, cervejas ou simplesmente por um turbilhão de confissões e gargalhadas – pareceram durar o tempo de um piscar de olhos, porém podem ser mais marcantes e “aproximadoras” do que uma convivência de anos.

Quando o cenário é de “ausência” essa elasticidade é ainda mais expressiva. A saudade aperta o coração ainda no instante da despedida. Olhar para alguém que é importante e imaginar que não o veremos tão cedo, antecipa – inevitavelmente – aquela dor de não poder ter sempre ao alcance das mãos. Anos se passam enquanto falamos a breve frase “até um dia”. Os mesmos anos que parecem sumir quando os olhos se cruzam novamente e o coração é reconfortado com o abraço no reencontro.

E a tal da distância, essa fanfarrona que impede de vermos ao vivo alguns sorrisos que são vitais para sermos nós mesmos. Ou de saber o que está se passando com um simples olhar, sem precisar de palavras. Felizmente a tecnologia está aí para amenizar, trazem para perto dos olhos, quem nunca saiu de dentro do coração. Filmes e músicas também têm esse poder mágico de desmaterializar um oceano inteiro. Bastam os primeiros acordes de algumas bandas para nos sentirmos acompanhados de pessoas de diferentes cidades (e até países).

Essa é a magia do tempo e do espaço. Nem mesmo os poetas ousaria explicar como é possível tamanha elasticidade e inconstância. Sou agradecida que funcione assim. E ainda mais grata por ter em minha vida pessoas mágicas que conseguem viajar da Inglaterra até São Paulo com uma simples mensagem de whatsapp; que fazem aparecer um sorriso em meu rosto enquanto leio Quintana; ou que “enviam” um abraço por “terceiros/quase desconhecidos”, rs – não menos verdadeiro, não menos caloroso, não menos apertado.

Ouvir algumas canções, ler certos versos ou visitar lugares carregados de histórias são as máquinas do tempo mais eficientes que existem. Assim como os poetas caçoam da morte, das dores de amor e das frustrações, eu uso essas “máquinas” para rir da distância e da ausência. Sei que as pessoas que amamos estão sempre ao fechar dos olhos, mais próximas e intensas que boa parte dos figurantes que trafegam no aqui e agora.

Se fazer lembrar e lembrar é mais que intencional, é importar-se.

Agosto e as fortes emoções para o Jornalismo

Agosto foi intenso para as empresas de comunicação. No Brasil, profissionais do meio e leitores ainda estão tentando compreender o propósito da mídia Ninja e o modelo de financiamento do Grupo que está fazendo um trabalho que cada vez ganha mais notoriedade. Exemplo claro é a entrevista histórica no programa Roda Viva, da TV Cultura, com representantes da velha mídia, visivelmente confusos e com dificuldade de dialogar com as pessoas por trás dessa nova forma de se pensar a cobertura jornalística.

Depois dessa aparição em rede nacional, o trabalho da mídia Ninja virou pauta das redes sociais, da conversa no bar e nas universidades. Há quem desconfie e ataque ferozmente. Outra parcela defende ou simplesmente torce para que algo melhor do que a forma de se fazer jornalismo atualmente (viciada e envelhecida) ganhe força. Muitos estão buscando conectar as pistas, fragmentos, residual de discussões e fatos concretos que legitimem ou não o trabalho dos “ninjas”. Faço parte do terceiro grupo – de quem ainda está “colando as peças”. De toda forma, é inegável que algo grande, importante e marcante está acontecendo com o modo como as pessoas estão entendendo o jornalismo e sua função social.

Ainda no Brasil, também em agosto, demissões em massa por parte da Editora Abril – com rumores de outras dispensas nos próximos meses. Junto com isso, retirada do mercado de vários títulos, agrupamento de redações e recuo de projetos editoriais.

No cenário internacional o grande acontecimento foi a compra do Washington Post, pelo presidente da Amazon, Jeff Bezos. A transação despertou as tradicionais teorias conspiratórias. Uma das mais comuns e equivocadas – ao meu ver – é: “o homem que matou o livro agora matará o jornal impresso”. Nunca foram comercializados tantos livros no mundo como hoje em dia e boa parte desse incremento se deve a atuação da Amazon. A empresa fez justamente o contrário do que foi repetidamente acusada: houve a facilitação do acesso às publicações, mas em uma plataforma digital. Pouco plausível que um empresário como Bezos investiria 250 milhões de dólares para uma jogada comercial tão simplista e maniqueísta. Estamos falando do Washington Post, uma das publicações mais tradicionais do mundo. Estamos falando do presidente da Amazon, uma das empresas que revolucionou modelos de negócios.

E o que há de comum entre esses episódios? Os elementos centrais do jornalismo finalmente “ouviram” um xeque mate, foram desafiados a se reinventar. Produto (jornalismo), produtores (jornalistas) e veículos são os protagonistas dos três fatos narrados acima. Nem vilões, nem mocinhos, simplesmente atores que precisam encontrar um novo tom de voz, formato e papel para estar em cena de modo convincente.

A indústria da música vem passando por isso há anos. A tecnologia, a mudança de comportamento do público e o entendimento sobre “valor x investimento x relevância” foram, gradativamente, moldando/forjando novos modelos econômicos, de produção e atuação dos artistas e das produtoras.

Ironicamente, o Jornalismo, quem vem acompanhando e fazendo a cobertura de tais reviravoltas em diferentes segmentos da sociedade, preferiu tardar o quanto pode até falar em alto e bom som que precisava se reinventar. Não há mais como negar. Hora de responder como será daqui para frente. Como diria BAUMAN (2011), “Temos plena ciência, por exemplo, que estamos sentados sobre uma bomba relógio ecológica, uma bomba-relógio demográfica, uma bomba-relógio consumista e alguns outros tipos de bomba, cujo número parece aumentar em vez de diminuir. (…) Já está mais do que na hora de parar de dizer que não fomos avisados”. Precisamos saber lidar com isso.

No “tranco” como está sendo vai causar mais barulho, apreensão e “efeitos colaterais”. Mas é possível construir boas soluções. O caos – originado em partes pela miopia sobre contextos e oportunidades – é produtivo quando não se tem medo dele; quando olhamos direto para o problema, sem usar de subterfúgios ou falácias.

A colisão já aconteceu. Arrumar a casa não é opcional, pois a pressão está vindo do público, das demandas sociais e das forças do mercado. Ou, nas palavras de WARSHAN, citado por JENKINS (2009) em seu livro a cultura da convergência, “As velhas mídias não morreram. Nossa relação com elas é que morreu. (…) e todos nós temos três opções: teme-las, ignorá-las ou aceitá-las”. Por isso, que venha a mídia Ninja, os novos formatos e propostas da Editora Abril, uma fase diferente para o Washington Post e demais novidades que profissionais talentosos podem fazer para transformar o caos em formas interessantes e que consigam resgatar a função do Jornalismo: informar para ajudar a transformar a sociedade.