“Uns”

Uma preguiça dengosa, quase moleca, embalada por boa música ou o barulho do mar.
Uma bebida suave – que não seja sonsa, mas também não entorpeça os sentidos – permitindo saborear seu real sabor.
Uma prosa leve, pontuada por risadas e ausência de senões, expectativas e cobranças.
Um passeio despretensioso, mesmo que por apenas 5 ou 10 minutos, para lembrar que há um céu lindo lá fora.
Uma descoberta – independente da proporção e dos efeitos futuros do novo saber – para lembrar que o ser humano é um bicho eternamente em formação.
Um coração batendo acelerado, mãos levemente trêmulas, gestos e tom de voz hesitantes, provocados por uma paixão “de metrô” ou por temer perder aquele sorriso que tão bem faz a esse mesmo coração.
Um olhar além do óbvio, focado no que está nas entrelinhas, nos olhares fugidios, gestos atrapalhados e nas frases “tortas” por não saber a melhor forma de demonstrar o que se sente.
Um importar-se simplesmente por se importar. Sem condições.
Por fim, se permitir!
Simples assim. Ou, talvez, não tão simples assim.

Oito pessoas

Ao longo dos anos centenas de pessoas participam de nossa vida. Cada uma tem sua importância e altera nosso caminhar de alguma forma. Não subestime mesmo a mais aleatória conversa, o mais despretensioso olhar. E em meio a esses agentes – coadjuvantes ou protagonistas – algumas acabam nos marcando de modo mais intenso porque são responsáveis por rupturas e aprendizados. Depois dessas pessoas – ou com elas – nos tornamos tão diferentes que é impossível não colocá-las em caixinhas especiais.

Nessas três décadas de tropeços e sorrisos,  tive a sorte de contar com oito dessas pessoas e associar cada uma delas com um verbo. As duas primeiras, claro, são meus pais. Perfeitos? Longe disso. Mas infinitamente mais especiais e melhores do que eu merecia. Com meu pai aprendi que devo TRABALHAR porque não importa o que acontece ao nosso redor e sim o que fazemos à respeito. Com a minha mãe ainda aprendo um bocado, mais sua grande lição é ZELAR com muito amor de todos que fazem parte de nossa vida.

Eis a vez de aprender a AMAR e não poderia ter professora melhor do que minha sobrinha Ana Beatriz. Antes de ouvir sua voz pela primeira vez ou de ver seu sorriso, era uma vidinha que eu amava e sabia que teria ligação para sempre. Nos termos da biologia, apenas minha sobrinha. Segundo minha irmã, minha afilhada. E para mim, meu solzinho particular que alegra meu coração com seu sorrisão e me faz esquecer que a vida nem sempre é simples.

O quarto verbo é se DIVERTIR. Foram “apenas” cinco meses ao seu lado, meu querido amigo JJ. Mas poucas pessoas eram tão intensas em todos os sentidos como você. Seus 27 anos valeram mais que a vida inteira de muitas pessoas. Convivemos poucas semanas e já foram o suficiente para não encarar o que acontece a minha volta da mesma forma. Os momentos passaram a ter o filtro JJ de qualidade.

O que faltava? COMPARTILHAR histórias – boas e más – pois só assim somos completos. E eis que esbarro em um estressado com o maior coração do mundo e com o poder de ler a minha mente, meu lindo e carinhoso amigo Eder Belo. Cumplicidade genuína, desinteressada e envolta numa irmandade por opção e não por determinação sanguínea.

Ainda faltam verbos nessa equação. Que tal sorrir? Em uma situação totalmente adversa e que seria marcada por lágrimas, meu segundo anjo, Fabiano, me ensinou a SORRIR com a alma. A sua resposta ao insucesso do tratamento de câncer era sorrir a cada segundo. Até hoje não faço ideia de onde vinha tanta energia e serenidade. E a nossa despedida foi um abraço caloroso e o sorriso mais verdadeiro e contagiante que recebi na vida. E por ter sido assim, tenho certeza que está por aqui, cada vez que eu sorrio exatamente como me ensinou, com a alma.

Ok, aprendi a trabalhar, zelar, amar, me divertir, compartilhar e sorrir, lições valiosas que me possibilitam caminhar. Tudo relativamente calmo e controlável. Até uma sétima pessoa entrar nessa história. Aquela que me encoraja e apoia a me PERMITIR. Permitir mudar de cidade para crescer; a me arriscar em sonhos, projetos e com pessoas. E, para minha sorte, há 3 anos está ao alcance das mãos (nossa amizade é minha “arma” secreta contra a solidão massacrante de São Paulo) dando colo quando a empreitada é desafortunada, comemorando comigo quando é exitosa e, principalmente, dando um bom safanão quando cogito fugir. De todos os verbos esse está sendo o mais difícil de materializar. Receio é meu companheiro constante, mas basta olhar para esses olhos verdes serenos e confiantes que o mundo se torna um lugar mais aprazível, seguro e aconchegante. E consigo, de novo, me permitir. Os tombos continuam ocorrendo, mas hoje tenho infinitamente mais histórias para contar e devo isso a você. E muitas aventuras ainda estão por vir. Há quem diga que nossa amizade é de outras vidas. Prefiro pensar que nossa amizade me deu outra vida, bem mais divertida e com motivos para me orgulhar. Valeu, Twitter (rs). Tão diferentes e tão cúmplices, somo assim André Sinkos. Somos felizes exatamente assim, meu irmão número “5s”.

O oitavo verbo é ACREDITAR, especialmente em mim mesma. Seu sucesso depende muito mais de você do que de terceiros. Quer ter sonhos? Tenha – não importa a grandiosidade dele, mas faça a sua parte para que virem realidade. Tinha aprendido um pouco sobre isso com meu pai, mas nos últimos meses, presenciei de perto o que é correr atrás de verdade de um sonho. Para de reclamar e faça! É assim né, JP?! Menos mimimi e mais trabalho. Obrigada por me mostrar que mesmo não sendo tão “simples assim” como eu gosto de falar, é no mínimo possível correr atrás, desde que se acredite no propósito da empreitada 🙂

Não gosto da conjugação na primeira pessoa do singular. Prefiro o “nós”. E quando penso nessas oito pessoas e em outras tantas que, mesmo não nominadas nesse texto, sabem o quanto sou grata, tenho ainda mais certeza que os linguistas não criaram conjugação mais perfeita que “nós” – podendo ser você e mais um ou mais muitos, tantos quanto seu coração comportar.

Essa história ainda não acabou. Faltam muitos verbos importantes para aprender. E meus “professores” estão a minha espera, ao atravessar a rua, ir no cinema, ministrar uma palestra, tomar um café no Starbucks. Não é o tempo ou a grandiosidade dos gestos de uma pessoa que a torna especial. E sim,  o quanto nosso coração está disposto a deixá-la fazer parte do nosso mundo. Que venham outros professores/verbos. E que o “nós” seja sempre crescente.

Ps.: texto dedicado especialmente ao meu irmão nº 5s que ontem completou mais um ano (e bem pertinho de mim). Obrigada. Love U. Aliás, obrigada a essas oito pessoas e todas que cruzam meu caminho. Sou a soma de vocês <3

Por nós

Minha mudança pra São Paulo aconteceu há 3 anos, exatamente no Dia dos Pais. Difícil esquecer a cara de apreensão que se apoderou do rosto do meu pai enquanto eu entrava no carro do meus amigos que me levariam ao aeroporto (não conseguiria deixá-lo fazer isso).

A partir desse dia, pelos próximos 7 meses eu seria acordada todo domingo pela frase “Oi, filhota.”. Geralmente meio sonolenta, balbuciava palavras clichês até finalmente entrar no status da vida em SP. A ligação, via de regra, terminava com um tom de tristeza e uma frase que demorei anos para entender “Quando você volta?”. Confesso que, não raro, ficava irritada. Parecia que torcia para que eu não desse certo aqui.

Quanta ingenuidade, a interpretação não poderia ser mais equivocada. Era justamente o contrário. Ele testava o quanto eu estava feliz nessa terra. Sabia que morar em uma cidade cinzenta, com pessoas endurecidas e “treinadas” a sobreviver constantemente competindo seria um cenário bem difícil para uma pessoa como eu – dependente de sorrisos, demonstrações de carinho e belas paisagens para contemplar. Toquei as Cataratas do Iguaçu pela Avenida Paulista. “Troquei” amigos-irmãos por “estranhos”. Troquei um projeto editorial que amava por uma aposta. Ele não torcia contra, só queria me motivar a ser forte, a ser a “baixinha teimosa” que educou com tanto amor.

Poucos meses depois da minha mudança para SP ele se foi. E como lidar com a sensação de que em seu último Dia dos Pais foi justamente quando o “abandonei”? Esse sentimento me acompanhou por muito tempo. Mas, conhecendo meu velhinho, hoje compreendo que foi justamente o contrário. Ele sempre me educou para ser uma pessoa que corre atrás do que quer, que não espera nada de ninguém – “vá lá e faça por você, mas sempre com respeito e ternura”. Ele me ensinou ainda que, mesmo levando rasteira das pessoas, temos que ser bons – “Não importa o que o outro faz de errado, mas o que você faz de bom”. Outro valor reforçado com vigor por ele era a importância de estudar muito e sempre. Não por acaso, minha última promessa é que faria mestrado na USP e cá estou. Por você, por mim, por nós. E, uma das lições mais lindas que tinha diariamente, nas suas pequenas ações no dia a dia, era a importância de ser honesta, correta, franca, respeitosa e protetora com todos que fazem parte da nossa vida – “dinheiro a gente perde, pessoas a gente protege, cuida e ama”.

Ele nem sabia, mas tinha me preparado exatamente para morar em SP. Ter saído pela segunda vez de casa justamente no último Dia dos Pais não foi acaso e menos ainda abandono. Eu mostrei para ele que estava pronta pro meu vôo solo, tendo por proteção os ensinamentos que ele tão brilhantemente me passou nesses anos todos. Hoje o sentimento não é de saudade, mas de gratidão. Não é de saudade porque tem tanto dele em mim que será sempre uma das pessoas mais presentes no meu dia. Obrigada universo por ter me dado um pai exatamente assim.

P.s: irmão e cunhados, justamente por ter um pai tão incrível, não deixei ocuparem o lugar dele. Sou a caçula, mas estou pronta para voar tendo-os apenas como irmãos, amados irmãos. O pai sempre estará “por aqui”.

Desperdício

Se usássemos cada minutos e energia que gastamos julgando os “coleguinhas” (conhecidos ou estranhos) para resolver problemas/inquietações que afligem nossa vida ou correndo atrás de nossos projetos/sonhos seríamos mais felizes e o mundo seria infinitamente mais legal.

Sua opinião sobre uma pessoa, especialmente em se tratando de “estranhos”, não muda a vida dela (e menos ainda a sua).

Faça a conta do tempo que gasta postando mensagens indignadas por conta da vida alheia ou apontando o dedo (mesmo que muitas vezes apenas mentalmente e/ou pelas costas). Agora, imagina “poupar” essa energia para usar em pensamentos e ações que façam bem (de verdade e de modo efetivo) ao seu coração?!

Foco no que importa: estar ao lado das pessoas que afloram a melhor versão de você mesma e deixar que cada um viva da forma que quiser. Como disse o poeta, “cada um sabe a dor e a alegria de ser quem é”. Simples assim!

Procura-se

Um cadinho de doçura, de bom humor.
Um afago despretensioso e sem expectativa.
Uma conversa nonsense e divertida, simplesmente para ver o tempo passar.
Uma esquivada da frieza que sufoca sorrisos e pesa a alma.

Mercado e academia: mistura boa como feijão e arroz, embora ambos insistam em ser caviar

Não raro vejo cara de poucos amigos na Universidade quando menciono que atuo no mercado – como se fosse algo “mundano e sujo”. Ausência de receptividade também acontece, por vezes, ao falar com pessoas “exclusivas de mercado”, que consideram academia quase como um “mal necessário”. Ouvi mais de uma vez declarações nessa linha: “Por que ‘perde’ tempo com mestrado, já não trabalha em agência?” ou “Está estudando só porque academia paga melhor do que agência?”.

A cada aula que ministro tenho mais certeza que a combinação não poderia ser mais perfeita. Sim, academia + mercado. Jenkins, Shirky, Bauman e McLuhan perpassam direta ou indiretamente cada estratégia que traço para os clientes que atendo nas agências. O tema da minha pesquisa de mestrado não poderia ser mais pertinente para meu atual desafio. Não preciso usar referências bibliográficas ou frases de impacto no ppt, mas os ensinamentos desses pesquisadores estão lá, atrás de cada ação, cada posicionamento. Idem na sala de aula. Não há como e menos ainda razão para dissociar um do outro. Vida de agência e/ou redação ensina muito e precisa ser levada aos alunos, afinal, nada como uma boa dose de vida real. Com as conexões adequadas, a experiência de mercado “materializa” os ensinamentos de mestres como Bauman.

Estar em sala e ver a cara de “estou entendo o que você está falando” ou aqueles alunos aglomerados no final da aula esperando para tirar dúvidas pontuais são respostas perfeitas para quem duvida que mercado e academia devem estar conectados. E, claro, a melhor recompensa para a vida maluca que é essa jornada dupla.

Nossa arte de brincar de “super heroi”

Você se dá conta que a energia está acabando quando trabalhar 12 horas por dia começa não ser tão fácil assim. A voz falha, o corpo dói e o cansaço vence a fome a ponto de vc preferir se jogar na cama e dormir sem se alimentar do que dar alguns passos até a cozinha.

Quando a mania de moleca de cidade pequena de interagir com todos que passam em seu caminho, mesmo que apenas com um discreto sorriso, é substituída por cabeça baixa e uso compulsivo do fone de ouvido em qualquer ambiente onde transitem humanos, para “se proteger” de eventuais diálogos.

Quando passa mais tempo habitando uma realidade paralela, tentando organizar mentalmente os 10 mil compromissos que assumiu e julgava compatíveis.

Quando precisa fazer força pra sorrir enquanto antes bastava ouvir uma música (mesmo ruim) ou sentir o vento bagunçar o cabelo. Sim, o riso pode nascer das banalidades do cotidiano. Quer dizer, nascia.

O mundo anda cinzento. As pessoas estão ocupadas demais e imersas em suas realidades, procurando bravamente enfrentar esse mesmo mundão nublado e solitário.

O “ao lado” se “agigantou” ou talvez eu tenha me tornado ainda mais pequenina. As pessoas estão longe do alcance das mãos e, não raro, do coração. Sobra ausência e falta olho no olho.

Julgamentos se reproduzem em ordem geométrica e a capacidade de gostar da diferença (não digo aceitar e sim querer aprender e conviver de coração com quem pensa e sente diferente) é usada com parcimônia.

Cobranças de sucesso e eficiência pautam até o tempo que podemos processar um fracasso. A frase “engole o choro” nunca foi sentenciada tantas vezes como agora, especialmente para adultos. Não há tempo para fragilidade, receios e menos ainda para “e se”.

Com metáforas medíocres a sociedade forja a necessidade de ignorar nossos fantasmas, pois resolvê-los demanda tempo, sinceridade e exposição. Vamos evitar a fadiga, como diz o jargão cada vez mais enraizado em nosso cotidiano. Está proibido enfraquecer, discordar dos “gurus”, se cansar.

Haja energia para ter essa vida “Família Doriana com filtro de Instagram” num mundo onde a superficialidade se desmascara em segundos, com poucas letras no Google.

Mais um dia se vai. E embora a energia esteja fraca, novas aventuras estão a espreita daqui poucas horas. Histórias que aguardam para serem contadas. É preciso seguir escrevendo esse roteiro. Cores, emoção e gargalhadas hão de surgir em algum momento. Provavelmente quando estiver distraída tal qual o avozinho do poema de Mário Quintana que procurava seu óculos que estava, justamente, na ponta de seu nariz.

A vida como ela é: romance, erotismo e comédia pastelão

Casal (em prospecção ainda) senta num cantinho, na sala mais aconchegante do Starbucks da Haddock e começa a jogar conversa fora. No começo, uma das pessoas estava visivelmente envergonhada e pouco à vontade pelo fato da sala estar cheia. Mal conseguia olhar diretamente nos olhos do parceiro.

Aos poucos as pessoas vão saindo, restando apenas o casal e uma mulher concentrada em seu notebook. Como se fosse combinado, proporcional ao esvaziamento da sala, a trilha sonora foi ficando mais sutil e com batidas românticas. Elementos suficientes para o casal esquecer o terceiro elemento na sala, deixar a vergonha de lado e materializar o que estava mais do que explicito nos movimentos desajeitados e nitidamente nervosos de ambos e no sorriso bobo, espontâneo e inconsciente, característico nas pessoas apaixonadas.

Clima de romance no ar. O terceiro elemento pensou como seria perfeito se começasse a tocar Vinicius de Moraes, o poetinha que hoje completaria 100 anos e que falava de amor como poucos. Mas esse olhar de ternura foi bruscamente interrompido quando o casal subitamente se transportou para um cenário típico das narrativas de Nelson Rodrigues. Impossível não lembrar da frase certeira de Eduardo Galeano: “somos todos imortais até o primeiro beijo e o segundo copo de vinho”.

A dúvida se a cena deveria ser considerada tentativa de bullyng (trabalhar em pleno domingo versus ser personagem de Nelson Rodrigues é uma comparação cruel) ou falta de noção ainda estava povoando a mente do terceiro elemento – que estava mais para ser invisível considerando a empolgação do casal – quando chegou um segurança e mudou drasticamente o gênero narrativo.

Do romance ao erotismo e, agora, hora da comédia pastelão. E como ele fez isso? Com uma frase:
– “Tenho duas alternativas: jogo água gelada para separar os dois ou entro na festa”.

Com uma deliciosa gargalhada e uma frase ainda mais espirituosa, um dos moços responde:
– “Não sei se dou conta dele, imagina de mais um homem armário como você. Melhor um plano C: partir e agora”.

Um riso generalizado toma conta da sala, com leves traços de constrangimento, claro. O segurança sai rindo e o casal se levanta e vai em direção a porta. Quanto ao terceiro elemento, um ponto laranja no sofá? Bem, volta a se concentrar no computador e preparar sua aula.
Ps.: História verídica e o ponto laranja/terceiro elemento/pessoa invisível sou EU 😛

A netinha “perdida*”

Entro no táxi e vejo uma simpática “vozinha” na direção.

Ela começa a contar a história da neta que há cinco anos fugiu de casa porque os pais não gostavam do namorado dela. Desde então, alguns telefones raros e breve (apenas para a vó).

Imaginei que a voz embargada e os olhos levemente marejados que observei pelo retrovisor eram pela emotividade implícita ao fato – especialmente pela saudade e quase ausência de notícia. Como estava enganada…

Quando chego ao meu destino e vou pagar, vejo que o taxímetro está parado há tempos. Fico sem saber como me portar e perguntou se houve algum problema com o equipamento porque mais ou menos sei quanto custa o trajeto (rotineiro nos últimos dias).

– “Não posso cobrar de você. Me lembra demais minha neta”.

Minha vez de engasgar e ficar completamente sem jeito. Insisti em pagar o valor que normalmente gasto ao percorrer esse caminho. E a vozinha me desmonta de vez:

– “Deixa eu pensar que levei minha menininha para passear como nos velhos tempos. Dá um sorriso que a corrida está paga e ainda fica com crédito” 

Adivinha quem saiu do táxi aos prantos? 

Por alguns instantes lamentei não ser a neta daquela senhora. Não pude evitar pensar em quanta dor cada um carrega por aí, mas precisa encobrir com um sorriso “amarelo”. Ela me recebeu com um delicioso sorriso e se despediu com os olhos vermelhos, segurando o choro. E o dia precisou seguir, para ambas. Mas com uma mistura de pesar, doçura e a sensação de que, mesmo não sendo a netinha “fugitiva”, recebi um carinhoso sorriso.

(*História verídica)