Nossa arte de brincar de “super heroi”

Você se dá conta que a energia está acabando quando trabalhar 12 horas por dia começa não ser tão fácil assim. A voz falha, o corpo dói e o cansaço vence a fome a ponto de vc preferir se jogar na cama e dormir sem se alimentar do que dar alguns passos até a cozinha.

Quando a mania de moleca de cidade pequena de interagir com todos que passam em seu caminho, mesmo que apenas com um discreto sorriso, é substituída por cabeça baixa e uso compulsivo do fone de ouvido em qualquer ambiente onde transitem humanos, para “se proteger” de eventuais diálogos.

Quando passa mais tempo habitando uma realidade paralela, tentando organizar mentalmente os 10 mil compromissos que assumiu e julgava compatíveis.

Quando precisa fazer força pra sorrir enquanto antes bastava ouvir uma música (mesmo ruim) ou sentir o vento bagunçar o cabelo. Sim, o riso pode nascer das banalidades do cotidiano. Quer dizer, nascia.

O mundo anda cinzento. As pessoas estão ocupadas demais e imersas em suas realidades, procurando bravamente enfrentar esse mesmo mundão nublado e solitário.

O “ao lado” se “agigantou” ou talvez eu tenha me tornado ainda mais pequenina. As pessoas estão longe do alcance das mãos e, não raro, do coração. Sobra ausência e falta olho no olho.

Julgamentos se reproduzem em ordem geométrica e a capacidade de gostar da diferença (não digo aceitar e sim querer aprender e conviver de coração com quem pensa e sente diferente) é usada com parcimônia.

Cobranças de sucesso e eficiência pautam até o tempo que podemos processar um fracasso. A frase “engole o choro” nunca foi sentenciada tantas vezes como agora, especialmente para adultos. Não há tempo para fragilidade, receios e menos ainda para “e se”.

Com metáforas medíocres a sociedade forja a necessidade de ignorar nossos fantasmas, pois resolvê-los demanda tempo, sinceridade e exposição. Vamos evitar a fadiga, como diz o jargão cada vez mais enraizado em nosso cotidiano. Está proibido enfraquecer, discordar dos “gurus”, se cansar.

Haja energia para ter essa vida “Família Doriana com filtro de Instagram” num mundo onde a superficialidade se desmascara em segundos, com poucas letras no Google.

Mais um dia se vai. E embora a energia esteja fraca, novas aventuras estão a espreita daqui poucas horas. Histórias que aguardam para serem contadas. É preciso seguir escrevendo esse roteiro. Cores, emoção e gargalhadas hão de surgir em algum momento. Provavelmente quando estiver distraída tal qual o avozinho do poema de Mário Quintana que procurava seu óculos que estava, justamente, na ponta de seu nariz.

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