O alto preço dos discursos de ódio

Pense nos comportamento natural das crianças. Elas amam seus pais, outras crianças, animais, flores, brinquedos e qualquer coisa que se movimente perto delas. Crianças distribuem sorriso até para estranhos. Amam cores, espontaneidade, novidade, descobertas e desafios.

Eis que num mundo corrompido de valores elementares como respeito, empatia e bom senso se faz necessário construir filtros, estabelecer padrões e determinar certo e errado. Cuidado, não fale com estranhos. Isso é normal e aquilo é anormal, o diferente é perigoso. Isso é cultura/arte/música. Isso é família. A vida é difícil, garanta o seu primeiro. Sucesso é ter/ser x ou y. Lápis de cor “cor de pele” é claro. Padrão de beleza é ser magra de cabelo liso, qualquer coisa diferente é feiura, desleixo ou, no máximo, aceito para fetiche. Divindade é apenas meu Deus, sem brecha para outra forma de fé ou crença. Isso é coisa de mulherzinha. A roupa e a cor de pele revelam a idoneidade do sujeito. Enfim, é A ou B, seguindo um guide social imaginário e legitimado coletivamente, sem espaço para múltiplas escolhas.

Referências são importantes, mas convivemos com mecanismos que dificultam a aceitação das situações que fogem do nosso padrão “pantone” de cores do mundo perfeito, normal, digno e de pessoas do bem. Por isso, me causa arrepio ler discursos de ódio como o da pastora Ana Paula Valadão para uma campanha de roupa sem gênero, de Bolsonaro fazendo apologia a torturadores ou de “nobres” deputados defendendo a Cura Gay. Desperta pânico similar ouvir pessoas pedindo a execução dos estupradores da menor do Rio de Janeiro (por mais terrível que seja esse crime), desejando a morte de políticos, como do governador do Rio de Janeiro (por mais corrupto que ele seja), ou ler comentários de agressividade gratuita em posts nas redes sociais. A “Cultura do Ódio” é alimentada diariamente, em micro-momentos, por milhares de pessoas, e há tempo venceu o diálogo, a ponderação e a empatia.

Na ânsia de manter a ordem e a paz, provocamos o caos (não no sentido positivo, criativo), tolimos a expansão de percepção de mundo das crianças de ontem, condicionando jovens e adultos que hoje enxergam o mundo a partir de seus umbigos, com referências preconceituosas e limitadas. Essa triste “formação”, combinada com doenças mentais levam a desfechos chocantes como a execução de 50 pessoas que estavam simplesmente exercendo seu direto de se divertir.

Chega a ser irônico ler notícias sobre um fato tão triste justamente no dia em que deveríamos comemora o amor. Irônico, mas não surpreendente, pois com tanta regras e verdades absolutas não me assusta que, não raro, amar tem script a seguir para ser respeitado/aceito ou quando fé é mais sobre controle do que sobre amor.

Parafraseando-me, quando somos crianças inventamos amigos imaginários. Quando somos adultos inventamos inimigos imaginários (aos montes). O preço desse ódio ensinado e perpetuado nos detalhes do cotidiano é uma histeria coletiva que está custando caro, está custando vidas, muitas vidas.

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