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Nem tudo precisa de rótulo ;)

Homenagem de “todo dia”

Dia do Orgasmo, Sogra, Infância, Idoso, Dia [coloque algum personagem ou situação que admire] e por aí vai. Preocupa-me bastante estipular datas para homenagear tudo e todos. Interesses comerciais estão por trás. Óbvio. Mas nosso ritmo de vida frenético tem sua parcela de culpa para a existência desse “calendário festivo”. Como se precisássemos de “lembretes” para pausarmos e olharmos com mais carinho para algumas pessoas e situações.

O Dia do Professor é um exemplo desse segundo caso. Materiais didáticos defasados, métodos de ensino que não acompanham as expectativas dos alunos, políticas educacionais pouco eficazes e alunos resistentes à sala de aula e, não raro, aos professores fazem com que a poesia da profissão pareça ficção. Quem dera os belos ideários de Paulo Freire fossem materializados no dia a dia da sala de aula.

Apesar disso, há quem resista bravamente. E mais que isso, transcende aos livros e faz a diferença na vida dos alunos. Sabe aquele professor que fez você estudar sobre o Parnasianismo? Então, ensinou a ler nas entrelinhas. Ou que usava as metáforas mais absurdas para “traduzir” as equações de matemática e as fórmulas de física? Você pode ter aprendido a olhar o mundo sob diferentes perspectivas. E os livros da Coleção Vagalume que foi “obrigado” a ler? Quando deixou de torcer o nariz porque estava “perdendo tempo”, viu que dava para se divertir muito com aqueles enredos e faria toda a diferença em como se relaciona com livros hoje. E os professores que instigavam o debate e semeavam a inquietação e a dúvida sobre a história sacramentada em livros? Fascinantes, ou melhor, necessários! Pessoas assim são mais que professores, são mestres.

Sou sortuda e tive vários mestres. Professor Amarildo me apresentou Mário Quintana e Eduardo Galeano; autores geniais que me fazem olhar o mundo de modo inquietante. Maurício, de química – matéria que sempre odiei – me lembrava todas as aulas que eu precisa entender até o que rejeito. Em suas palavras, “só pode desdenhar o que conhece”. Na vida é mais ou menos assim. O querido Martin que me deixou encantada pela docência e pelo mundo da pesquisa e ensinou-me a entender muito de ser humano. E um dos mais especiais que com uma frase traçou minha carreira: “Menininha, você nasceu para contar histórias. Não foge de você”. Com Sérgio Gadini, Kelly Prudencio, Cicelia Pincer e Luciana Panke deixei de lado a “menininha” e fiquei com as histórias e uma nova forma de escrever sobre esse mundo que me rodeia. Esses professores não podem ser associados a meia dúzia de livros lidos (no caso da Cicélia muito mais que meia dúzia, rs). São meus mestres e formaram a profissional, a cidadã e a apaixonada por literatura, cinema e ser humano. Sou grata, e muito!

Render homenagens aos professores apenas por um dia não é o suficiente. Passa longe de ser justo com quem investe horas preciosas para formar pessoas que, quem sabe, um dia demonstrem gratidão e carinho às mães, pais, sogras e idosos todos os dias do ano, independente do calendário!

obs.: texto que escrevi em 15/out/2012, mas que ainda está valendo – e muito.

O alto preço dos discursos de ódio

Pense nos comportamento natural das crianças. Elas amam seus pais, outras crianças, animais, flores, brinquedos e qualquer coisa que se movimente perto delas. Crianças distribuem sorriso até para estranhos. Amam cores, espontaneidade, novidade, descobertas e desafios.

Eis que num mundo corrompido de valores elementares como respeito, empatia e bom senso se faz necessário construir filtros, estabelecer padrões e determinar certo e errado. Cuidado, não fale com estranhos. Isso é normal e aquilo é anormal, o diferente é perigoso. Isso é cultura/arte/música. Isso é família. A vida é difícil, garanta o seu primeiro. Sucesso é ter/ser x ou y. Lápis de cor “cor de pele” é claro. Padrão de beleza é ser magra de cabelo liso, qualquer coisa diferente é feiura, desleixo ou, no máximo, aceito para fetiche. Divindade é apenas meu Deus, sem brecha para outra forma de fé ou crença. Isso é coisa de mulherzinha. A roupa e a cor de pele revelam a idoneidade do sujeito. Enfim, é A ou B, seguindo um guide social imaginário e legitimado coletivamente, sem espaço para múltiplas escolhas.

Referências são importantes, mas convivemos com mecanismos que dificultam a aceitação das situações que fogem do nosso padrão “pantone” de cores do mundo perfeito, normal, digno e de pessoas do bem. Por isso, me causa arrepio ler discursos de ódio como o da pastora Ana Paula Valadão para uma campanha de roupa sem gênero, de Bolsonaro fazendo apologia a torturadores ou de “nobres” deputados defendendo a Cura Gay. Desperta pânico similar ouvir pessoas pedindo a execução dos estupradores da menor do Rio de Janeiro (por mais terrível que seja esse crime), desejando a morte de políticos, como do governador do Rio de Janeiro (por mais corrupto que ele seja), ou ler comentários de agressividade gratuita em posts nas redes sociais. A “Cultura do Ódio” é alimentada diariamente, em micro-momentos, por milhares de pessoas, e há tempo venceu o diálogo, a ponderação e a empatia.

Na ânsia de manter a ordem e a paz, provocamos o caos (não no sentido positivo, criativo), tolimos a expansão de percepção de mundo das crianças de ontem, condicionando jovens e adultos que hoje enxergam o mundo a partir de seus umbigos, com referências preconceituosas e limitadas. Essa triste “formação”, combinada com doenças mentais levam a desfechos chocantes como a execução de 50 pessoas que estavam simplesmente exercendo seu direto de se divertir.

Chega a ser irônico ler notícias sobre um fato tão triste justamente no dia em que deveríamos comemora o amor. Irônico, mas não surpreendente, pois com tanta regras e verdades absolutas não me assusta que, não raro, amar tem script a seguir para ser respeitado/aceito ou quando fé é mais sobre controle do que sobre amor.

Parafraseando-me, quando somos crianças inventamos amigos imaginários. Quando somos adultos inventamos inimigos imaginários (aos montes). O preço desse ódio ensinado e perpetuado nos detalhes do cotidiano é uma histeria coletiva que está custando caro, está custando vidas, muitas vidas.

Sobre histórias…

“O mundo é feito de histórias.
Histórias que acontecem a cada dia,
histórias grandes ou pequeninas.
E é preciso contá-las, principalmente
quando a mão coça.
Não pode haver divórcio entre o corpo e a cabeça.
Precisamos reencontrar esta unidade perdida”.

 

Eduardo Galeano

Sobre quintanear…

Minha família, especialmente minha irmã, sempre riu da minha memória prodigiosa desde pequena para lembrar de situações corriqueiras. Lembro da perna “rasgada” em uma torneira com poucos anos, de cair dentro de um freezer na tentativa de pegar algo (porque, óbvio, era uma anã aos 5 anos – e ainda continuo sendo), dentre outras histórias ~~estranhas~~ que só eu consigo (é meu jeitinho).

Além das bizarrices, como diria Gabriel Ishida, uma em especial fez toda a diferença para despertar uma paixão que nunca se findou. Na primeira série, sem saber articular um parágrafo direito – lembrem-se que sou balzaca, logo não nasci com super poderes como as crianças de hoje – vi um livro de um poeta gaúcho na mesa da minha professora. Fui reparando que a cada semana ela estava com um livro diferente, mas sempre desse autor. Aprendi o sentido da palavra aficionada, embora não soubesse pronunciar a dita cuja e menos ainda escrevê-la. Curiosa que sou, perguntei porque ela só lia essa pessoa e como alguém poderia ter tanto livro. Ela falou que ele tinha dezenas. Na época achei lorota. Eu demorava horas para fazer meia dúzia de frases, como alguém poderia ter escrito dezenas de livros.

Certa vez, em uma das minhas redações, junto com a nota e a tal das estrelinhas – critério discutível que professores do Ensino Fundamental atribuíam aos alunos (considerava bullying – outra palavra que não saberia escrever e tão pouco que existia) minha professora escreveu uma frase: “Eles passarão… eu passarinho”. E lá foi o projeto de criança (com meu “imponente” 1 metro de altura) perguntar o que significava. E ela respondeu: “minha aula extra pra você, um pouco de Mário Quintana”.  Mal sabia ela a encrenca que se meteu. Dia sim, dia também, eu fazia ela me falar alguma frase dele na hora do intervalo. E assim esse gauchinho entrou na minha vida, para não sair jamais. Não lembro o nome da professora – sorry, foi mal aê, tia – mas aprendi direitinho a “aula extra”.

Quanto mais lia sobre o poetinha das coisas simples, mais me encantava por ele, por histórias, por escrever, pelo cotidiano, pelo simples e por “ler pessoas”. Cada poesia de Mário Quintana é um estudo antropológico escrito em verso, de forma leve e intensa, ficcional mas carregado de realidade. Aprendi a interpretar pessoas por meio de seus textos. E olha, o mundo fica bem mais compreensível – embora nem sempre agradável – sob o filtro quintaneano. Não à toa, virou tatuagem, minha preferida.

Sexta é dia de conhecer mais um pouquinho desse gauchinho, visitando seu museu, em Porto Alegre. É o que é possível, pois infelizmente o desejo de conhecer aquele rabugento e ainda assim doce “vozinho” nunca se materializou. Mas a cada texto meu, tem um pouquinho dele. E cada texto dele, tem um montão de mim. Vou chorar? Claro.

Manual

Deixe-me livre, levando os necessários tombos para aprender que há limites, condições e consequências. Mantenha distância para que eu possa experimentar o gosto de perder, ganhar, acertar, errar, sabendo a hora de regressar e estar ao alcance das mãos para me censurar ou celebrar comigo.

Não me deixe esquecer do sentimento de proteção presente em cada abraço – mesmo um despretensioso – e a força de um olhar, capaz de dizer mais do que horas de conversa.

Tome distância, mas não a ponto de me impossibilitar ouvir uma deliciosa gargalhada.

Critique e desconstrua meus projetos e sonhos, sem meias palavras, complacência ou receio de ofender. Mas o faça com responsabilidade, seriedade e convicção a cada palavra que proferir. Uma opinião sincera é necessária, mesmo que difícil. E em meio aos “destroços”, assegure-se que restaram elementos que servirão de base à construção de uma nova empreitada, agora um pouquinho sua também.

Impulsione-me a ser menos pragmática e dependente de terra firme, mas me dê um banho de Eduardo Galeano quando eu Quintanear em demasia. O lirismo, embora necessário, não pode ignorar as adversidades que perpassam cada instante de nossa vida.

Procure conhecer minhas histórias pois a soma delas fazem eu ser quem sou. Mas não busque respostas. Não é possível dimensionar as recordações e marcas de terceiros. É complicado dividir fantasmas que só fazem sentido no meu mundo. Ao invés de explicações, sinta. No fundo importa pouco o que me tornou como sou. A grande questão é se faço bem ou mal ao seu coração sendo assim.

Por fim, abdique de expectativas de perfeições e verdade absolutas. Posso ser leve e moleca como os versos de Quintana ou carregar preocupação com o futuro como o mestre Galeano. Um pacote de imperfeições e incertezas e a crença que a solução dos problemas não está em deixar o tempo passar e sim na nossa capacidade de nos permitirmos. Ah, e buscando sempre ostentar um sincero e largo sorriso, para que seja a primeira e a última expressão a cada encontro e despedida.

 

“Uns”

Uma preguiça dengosa, quase moleca, embalada por boa música ou o barulho do mar.
Uma bebida suave – que não seja sonsa, mas também não entorpeça os sentidos – permitindo saborear seu real sabor.
Uma prosa leve, pontuada por risadas e ausência de senões, expectativas e cobranças.
Um passeio despretensioso, mesmo que por apenas 5 ou 10 minutos, para lembrar que há um céu lindo lá fora.
Uma descoberta – independente da proporção e dos efeitos futuros do novo saber – para lembrar que o ser humano é um bicho eternamente em formação.
Um coração batendo acelerado, mãos levemente trêmulas, gestos e tom de voz hesitantes, provocados por uma paixão “de metrô” ou por temer perder aquele sorriso que tão bem faz a esse mesmo coração.
Um olhar além do óbvio, focado no que está nas entrelinhas, nos olhares fugidios, gestos atrapalhados e nas frases “tortas” por não saber a melhor forma de demonstrar o que se sente.
Um importar-se simplesmente por se importar. Sem condições.
Por fim, se permitir!
Simples assim. Ou, talvez, não tão simples assim.

Oito pessoas

Ao longo dos anos centenas de pessoas participam de nossa vida. Cada uma tem sua importância e altera nosso caminhar de alguma forma. Não subestime mesmo a mais aleatória conversa, o mais despretensioso olhar. E em meio a esses agentes – coadjuvantes ou protagonistas – algumas acabam nos marcando de modo mais intenso porque são responsáveis por rupturas e aprendizados. Depois dessas pessoas – ou com elas – nos tornamos tão diferentes que é impossível não colocá-las em caixinhas especiais.

Nessas três décadas de tropeços e sorrisos,  tive a sorte de contar com oito dessas pessoas e associar cada uma delas com um verbo. As duas primeiras, claro, são meus pais. Perfeitos? Longe disso. Mas infinitamente mais especiais e melhores do que eu merecia. Com meu pai aprendi que devo TRABALHAR porque não importa o que acontece ao nosso redor e sim o que fazemos à respeito. Com a minha mãe ainda aprendo um bocado, mais sua grande lição é ZELAR com muito amor de todos que fazem parte de nossa vida.

Eis a vez de aprender a AMAR e não poderia ter professora melhor do que minha sobrinha Ana Beatriz. Antes de ouvir sua voz pela primeira vez ou de ver seu sorriso, era uma vidinha que eu amava e sabia que teria ligação para sempre. Nos termos da biologia, apenas minha sobrinha. Segundo minha irmã, minha afilhada. E para mim, meu solzinho particular que alegra meu coração com seu sorrisão e me faz esquecer que a vida nem sempre é simples.

O quarto verbo é se DIVERTIR. Foram “apenas” cinco meses ao seu lado, meu querido amigo JJ. Mas poucas pessoas eram tão intensas em todos os sentidos como você. Seus 27 anos valeram mais que a vida inteira de muitas pessoas. Convivemos poucas semanas e já foram o suficiente para não encarar o que acontece a minha volta da mesma forma. Os momentos passaram a ter o filtro JJ de qualidade.

O que faltava? COMPARTILHAR histórias – boas e más – pois só assim somos completos. E eis que esbarro em um estressado com o maior coração do mundo e com o poder de ler a minha mente, meu lindo e carinhoso amigo Eder Belo. Cumplicidade genuína, desinteressada e envolta numa irmandade por opção e não por determinação sanguínea.

Ainda faltam verbos nessa equação. Que tal sorrir? Em uma situação totalmente adversa e que seria marcada por lágrimas, meu segundo anjo, Fabiano, me ensinou a SORRIR com a alma. A sua resposta ao insucesso do tratamento de câncer era sorrir a cada segundo. Até hoje não faço ideia de onde vinha tanta energia e serenidade. E a nossa despedida foi um abraço caloroso e o sorriso mais verdadeiro e contagiante que recebi na vida. E por ter sido assim, tenho certeza que está por aqui, cada vez que eu sorrio exatamente como me ensinou, com a alma.

Ok, aprendi a trabalhar, zelar, amar, me divertir, compartilhar e sorrir, lições valiosas que me possibilitam caminhar. Tudo relativamente calmo e controlável. Até uma sétima pessoa entrar nessa história. Aquela que me encoraja e apoia a me PERMITIR. Permitir mudar de cidade para crescer; a me arriscar em sonhos, projetos e com pessoas. E, para minha sorte, há 3 anos está ao alcance das mãos (nossa amizade é minha “arma” secreta contra a solidão massacrante de São Paulo) dando colo quando a empreitada é desafortunada, comemorando comigo quando é exitosa e, principalmente, dando um bom safanão quando cogito fugir. De todos os verbos esse está sendo o mais difícil de materializar. Receio é meu companheiro constante, mas basta olhar para esses olhos verdes serenos e confiantes que o mundo se torna um lugar mais aprazível, seguro e aconchegante. E consigo, de novo, me permitir. Os tombos continuam ocorrendo, mas hoje tenho infinitamente mais histórias para contar e devo isso a você. E muitas aventuras ainda estão por vir. Há quem diga que nossa amizade é de outras vidas. Prefiro pensar que nossa amizade me deu outra vida, bem mais divertida e com motivos para me orgulhar. Valeu, Twitter (rs). Tão diferentes e tão cúmplices, somo assim André Sinkos. Somos felizes exatamente assim, meu irmão número “5s”.

O oitavo verbo é ACREDITAR, especialmente em mim mesma. Seu sucesso depende muito mais de você do que de terceiros. Quer ter sonhos? Tenha – não importa a grandiosidade dele, mas faça a sua parte para que virem realidade. Tinha aprendido um pouco sobre isso com meu pai, mas nos últimos meses, presenciei de perto o que é correr atrás de verdade de um sonho. Para de reclamar e faça! É assim né, JP?! Menos mimimi e mais trabalho. Obrigada por me mostrar que mesmo não sendo tão “simples assim” como eu gosto de falar, é no mínimo possível correr atrás, desde que se acredite no propósito da empreitada 🙂

Não gosto da conjugação na primeira pessoa do singular. Prefiro o “nós”. E quando penso nessas oito pessoas e em outras tantas que, mesmo não nominadas nesse texto, sabem o quanto sou grata, tenho ainda mais certeza que os linguistas não criaram conjugação mais perfeita que “nós” – podendo ser você e mais um ou mais muitos, tantos quanto seu coração comportar.

Essa história ainda não acabou. Faltam muitos verbos importantes para aprender. E meus “professores” estão a minha espera, ao atravessar a rua, ir no cinema, ministrar uma palestra, tomar um café no Starbucks. Não é o tempo ou a grandiosidade dos gestos de uma pessoa que a torna especial. E sim,  o quanto nosso coração está disposto a deixá-la fazer parte do nosso mundo. Que venham outros professores/verbos. E que o “nós” seja sempre crescente.

Ps.: texto dedicado especialmente ao meu irmão nº 5s que ontem completou mais um ano (e bem pertinho de mim). Obrigada. Love U. Aliás, obrigada a essas oito pessoas e todas que cruzam meu caminho. Sou a soma de vocês <3

Por nós

Minha mudança pra São Paulo aconteceu há 3 anos, exatamente no Dia dos Pais. Difícil esquecer a cara de apreensão que se apoderou do rosto do meu pai enquanto eu entrava no carro do meus amigos que me levariam ao aeroporto (não conseguiria deixá-lo fazer isso).

A partir desse dia, pelos próximos 7 meses eu seria acordada todo domingo pela frase “Oi, filhota.”. Geralmente meio sonolenta, balbuciava palavras clichês até finalmente entrar no status da vida em SP. A ligação, via de regra, terminava com um tom de tristeza e uma frase que demorei anos para entender “Quando você volta?”. Confesso que, não raro, ficava irritada. Parecia que torcia para que eu não desse certo aqui.

Quanta ingenuidade, a interpretação não poderia ser mais equivocada. Era justamente o contrário. Ele testava o quanto eu estava feliz nessa terra. Sabia que morar em uma cidade cinzenta, com pessoas endurecidas e “treinadas” a sobreviver constantemente competindo seria um cenário bem difícil para uma pessoa como eu – dependente de sorrisos, demonstrações de carinho e belas paisagens para contemplar. Toquei as Cataratas do Iguaçu pela Avenida Paulista. “Troquei” amigos-irmãos por “estranhos”. Troquei um projeto editorial que amava por uma aposta. Ele não torcia contra, só queria me motivar a ser forte, a ser a “baixinha teimosa” que educou com tanto amor.

Poucos meses depois da minha mudança para SP ele se foi. E como lidar com a sensação de que em seu último Dia dos Pais foi justamente quando o “abandonei”? Esse sentimento me acompanhou por muito tempo. Mas, conhecendo meu velhinho, hoje compreendo que foi justamente o contrário. Ele sempre me educou para ser uma pessoa que corre atrás do que quer, que não espera nada de ninguém – “vá lá e faça por você, mas sempre com respeito e ternura”. Ele me ensinou ainda que, mesmo levando rasteira das pessoas, temos que ser bons – “Não importa o que o outro faz de errado, mas o que você faz de bom”. Outro valor reforçado com vigor por ele era a importância de estudar muito e sempre. Não por acaso, minha última promessa é que faria mestrado na USP e cá estou. Por você, por mim, por nós. E, uma das lições mais lindas que tinha diariamente, nas suas pequenas ações no dia a dia, era a importância de ser honesta, correta, franca, respeitosa e protetora com todos que fazem parte da nossa vida – “dinheiro a gente perde, pessoas a gente protege, cuida e ama”.

Ele nem sabia, mas tinha me preparado exatamente para morar em SP. Ter saído pela segunda vez de casa justamente no último Dia dos Pais não foi acaso e menos ainda abandono. Eu mostrei para ele que estava pronta pro meu vôo solo, tendo por proteção os ensinamentos que ele tão brilhantemente me passou nesses anos todos. Hoje o sentimento não é de saudade, mas de gratidão. Não é de saudade porque tem tanto dele em mim que será sempre uma das pessoas mais presentes no meu dia. Obrigada universo por ter me dado um pai exatamente assim.

P.s: irmão e cunhados, justamente por ter um pai tão incrível, não deixei ocuparem o lugar dele. Sou a caçula, mas estou pronta para voar tendo-os apenas como irmãos, amados irmãos. O pai sempre estará “por aqui”.

Desperdício

Se usássemos cada minutos e energia que gastamos julgando os “coleguinhas” (conhecidos ou estranhos) para resolver problemas/inquietações que afligem nossa vida ou correndo atrás de nossos projetos/sonhos seríamos mais felizes e o mundo seria infinitamente mais legal.

Sua opinião sobre uma pessoa, especialmente em se tratando de “estranhos”, não muda a vida dela (e menos ainda a sua).

Faça a conta do tempo que gasta postando mensagens indignadas por conta da vida alheia ou apontando o dedo (mesmo que muitas vezes apenas mentalmente e/ou pelas costas). Agora, imagina “poupar” essa energia para usar em pensamentos e ações que façam bem (de verdade e de modo efetivo) ao seu coração?!

Foco no que importa: estar ao lado das pessoas que afloram a melhor versão de você mesma e deixar que cada um viva da forma que quiser. Como disse o poeta, “cada um sabe a dor e a alegria de ser quem é”. Simples assim!