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Mercado e academia: mistura boa como feijão e arroz, embora ambos insistam em ser caviar

Não raro vejo cara de poucos amigos na Universidade quando menciono que atuo no mercado – como se fosse algo “mundano e sujo”. Ausência de receptividade também acontece, por vezes, ao falar com pessoas “exclusivas de mercado”, que consideram academia quase como um “mal necessário”. Ouvi mais de uma vez declarações nessa linha: “Por que ‘perde’ tempo com mestrado, já não trabalha em agência?” ou “Está estudando só porque academia paga melhor do que agência?”.

A cada aula que ministro tenho mais certeza que a combinação não poderia ser mais perfeita. Sim, academia + mercado. Jenkins, Shirky, Bauman e McLuhan perpassam direta ou indiretamente cada estratégia que traço para os clientes que atendo nas agências. O tema da minha pesquisa de mestrado não poderia ser mais pertinente para meu atual desafio. Não preciso usar referências bibliográficas ou frases de impacto no ppt, mas os ensinamentos desses pesquisadores estão lá, atrás de cada ação, cada posicionamento. Idem na sala de aula. Não há como e menos ainda razão para dissociar um do outro. Vida de agência e/ou redação ensina muito e precisa ser levada aos alunos, afinal, nada como uma boa dose de vida real. Com as conexões adequadas, a experiência de mercado “materializa” os ensinamentos de mestres como Bauman.

Estar em sala e ver a cara de “estou entendo o que você está falando” ou aqueles alunos aglomerados no final da aula esperando para tirar dúvidas pontuais são respostas perfeitas para quem duvida que mercado e academia devem estar conectados. E, claro, a melhor recompensa para a vida maluca que é essa jornada dupla.

Agosto e as fortes emoções para o Jornalismo

Agosto foi intenso para as empresas de comunicação. No Brasil, profissionais do meio e leitores ainda estão tentando compreender o propósito da mídia Ninja e o modelo de financiamento do Grupo que está fazendo um trabalho que cada vez ganha mais notoriedade. Exemplo claro é a entrevista histórica no programa Roda Viva, da TV Cultura, com representantes da velha mídia, visivelmente confusos e com dificuldade de dialogar com as pessoas por trás dessa nova forma de se pensar a cobertura jornalística.

Depois dessa aparição em rede nacional, o trabalho da mídia Ninja virou pauta das redes sociais, da conversa no bar e nas universidades. Há quem desconfie e ataque ferozmente. Outra parcela defende ou simplesmente torce para que algo melhor do que a forma de se fazer jornalismo atualmente (viciada e envelhecida) ganhe força. Muitos estão buscando conectar as pistas, fragmentos, residual de discussões e fatos concretos que legitimem ou não o trabalho dos “ninjas”. Faço parte do terceiro grupo – de quem ainda está “colando as peças”. De toda forma, é inegável que algo grande, importante e marcante está acontecendo com o modo como as pessoas estão entendendo o jornalismo e sua função social.

Ainda no Brasil, também em agosto, demissões em massa por parte da Editora Abril – com rumores de outras dispensas nos próximos meses. Junto com isso, retirada do mercado de vários títulos, agrupamento de redações e recuo de projetos editoriais.

No cenário internacional o grande acontecimento foi a compra do Washington Post, pelo presidente da Amazon, Jeff Bezos. A transação despertou as tradicionais teorias conspiratórias. Uma das mais comuns e equivocadas – ao meu ver – é: “o homem que matou o livro agora matará o jornal impresso”. Nunca foram comercializados tantos livros no mundo como hoje em dia e boa parte desse incremento se deve a atuação da Amazon. A empresa fez justamente o contrário do que foi repetidamente acusada: houve a facilitação do acesso às publicações, mas em uma plataforma digital. Pouco plausível que um empresário como Bezos investiria 250 milhões de dólares para uma jogada comercial tão simplista e maniqueísta. Estamos falando do Washington Post, uma das publicações mais tradicionais do mundo. Estamos falando do presidente da Amazon, uma das empresas que revolucionou modelos de negócios.

E o que há de comum entre esses episódios? Os elementos centrais do jornalismo finalmente “ouviram” um xeque mate, foram desafiados a se reinventar. Produto (jornalismo), produtores (jornalistas) e veículos são os protagonistas dos três fatos narrados acima. Nem vilões, nem mocinhos, simplesmente atores que precisam encontrar um novo tom de voz, formato e papel para estar em cena de modo convincente.

A indústria da música vem passando por isso há anos. A tecnologia, a mudança de comportamento do público e o entendimento sobre “valor x investimento x relevância” foram, gradativamente, moldando/forjando novos modelos econômicos, de produção e atuação dos artistas e das produtoras.

Ironicamente, o Jornalismo, quem vem acompanhando e fazendo a cobertura de tais reviravoltas em diferentes segmentos da sociedade, preferiu tardar o quanto pode até falar em alto e bom som que precisava se reinventar. Não há mais como negar. Hora de responder como será daqui para frente. Como diria BAUMAN (2011), “Temos plena ciência, por exemplo, que estamos sentados sobre uma bomba relógio ecológica, uma bomba-relógio demográfica, uma bomba-relógio consumista e alguns outros tipos de bomba, cujo número parece aumentar em vez de diminuir. (…) Já está mais do que na hora de parar de dizer que não fomos avisados”. Precisamos saber lidar com isso.

No “tranco” como está sendo vai causar mais barulho, apreensão e “efeitos colaterais”. Mas é possível construir boas soluções. O caos – originado em partes pela miopia sobre contextos e oportunidades – é produtivo quando não se tem medo dele; quando olhamos direto para o problema, sem usar de subterfúgios ou falácias.

A colisão já aconteceu. Arrumar a casa não é opcional, pois a pressão está vindo do público, das demandas sociais e das forças do mercado. Ou, nas palavras de WARSHAN, citado por JENKINS (2009) em seu livro a cultura da convergência, “As velhas mídias não morreram. Nossa relação com elas é que morreu. (…) e todos nós temos três opções: teme-las, ignorá-las ou aceitá-las”. Por isso, que venha a mídia Ninja, os novos formatos e propostas da Editora Abril, uma fase diferente para o Washington Post e demais novidades que profissionais talentosos podem fazer para transformar o caos em formas interessantes e que consigam resgatar a função do Jornalismo: informar para ajudar a transformar a sociedade.